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    Início Nosso trabalho Mobilização Comunicação e visibilidade Blog Visibilidade Trans: existência, resistência e ocupação de espaços

    Visibilidade Trans: existência, resistência e ocupação de espaços

    09/02/2026
    8 min
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    Foto: Lucianna Ferreira – Cedeca Ceará/ Acervo Fundo Brasil

     

    O dia 29 de janeiro é de extrema importância para a comunidade LGBTQIAPN+. O ‘T’ da sigla ganha protagonismo no Dia Nacional da Visibilidade Trans ao reforçar a luta, os direitos e a dignidade das pessoas transexuais e travestis.

    Mas apesar do simbolismo que a data carrega, a realidade no nosso país é alarmante: dados da última edição do dossiê feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) expõe que o Brasil segue em primeiro lugar no ranking de países que mais matam pessoas transexuais e travestis no mundo, com 80 assassinatos registrados no ano de 2025. 

    Isso ajuda a compreender os caminhos de resistência e sobrevivência das pessoas trans. Acompanhe conosco ao longo deste blogpost porque a visibilidade se faz tão urgente e necessária, vamos nessa?!

    Invisibilização no contexto histórico

    Antes de falarmos sobre visibilidade, é necessário olhar para o seu oposto: a invisibilização. Um processo de apagamento construído historicamente, e que se perpetua até os dias de hoje, moldando a forma como pessoas trans são vistas, tratadas, ou simplesmente ignoradas pela sociedade.

    No Brasil colonial, no século XVIII, esse controle já se fazia presente. A igreja punia homens que se vestiam com roupas consideradas femininas, aplicando multas, designando castigos públicos e até banimento – reforçando as normas rígidas e criminalizando qualquer expressão divergente ao que era “correto” para aquela época. 

    Durante a ditadura militar, essa repressão se intensificou, e entre os anos 1970 e 1980, operações policiais como a chamada “rondão” resultaram na prisão de milhares de travestis em um curto período de tempo, sob o pretexto de “manutenção da ordem”.  Em paralelo, até dentro de movimentos sociais, a exclusão persistia: na Constituinte de 1987, que foi o processo que reuniu representantes eleitos para a elaboração da nova Constituição após o fim da ditadura, travestis e pessoas trans foram deixadas de fora do debate, sob a justificativa de que presença deles poderia “prejudicar” a imagem considerada respeitável do movimento gay da época.

    Atualmente, a invisibilização assume formas menos explícitas, mas igualmente profundas, atravessando diferentes esferas. No Brasil, por exemplo, somente no ano de 2018 que o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito de pessoas trans à retificação de nome e gênero em documentos oficiais sem a exigência de cirurgia ou decisão judicial.

    É verdade que temos avanços visíveis quando comparados a períodos como a ditadura, mas isso não significa que os desafios tenham desaparecido. Enquanto direitos como esse avançam lentamente nas políticas públicas, vemos a resistência acontecer de outras formas, e uma das mais potentes é a presença de pessoas trans nos diferentes espaços da vida social, ainda que esse acesso siga sendo marcado por obstáculos. E como isso se traduz no cotidiano?

    Presença na educação

    Revelando as barreiras de forma evidente, para a população trans, o acesso e a permanência na educação – da básica à superior – segue sendo um grande desafio.  Situações recorrentes de violência e preconceito impactam diretamente essas trajetórias. Cerca de 70% das pessoas trans e travestis não concluíram o Ensino Médio e apenas 0,02% tiveram acesso ao ensino superior, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), de 2022.

    Diante desse cenário, as políticas de cotas se mostram fundamentais como ferramenta de reparação e ampliação de oportunidades. Ainda segundo a Antra, cerca de 38 universidades federais e estaduais adotam cotas para pessoas trans, você pode conferir quais são clicando neste link. 

    Presença no mercado de trabalho 

    Após o percurso educacional, muitas vezes interrompido pela evasão, muitas pessoas trans se veem obrigadas a buscar alternativas fora do mercado formal de trabalho para garantir a própria sobrevivência. 

    Essa realidade se reflete em números: um estudo realizado pela organização To.gather, com 289 empresas brasileiras, revelou que, em um universo de 1,5 milhão de trabalhadores formais, apenas 0,9% eram pessoas trans ou travestis. 

    A escassez de oportunidades empurra grande parte dessa população para a informalidade e, em muitos casos, para a prostituição – realidade que atinge cerca de 90% de travestis e transexuais no Brasil. Quando tentam acessar vagas formais o que encontram são vínculos instáveis e ambientes marcados pela discriminação.

    Para além dos dados, a experiência de quem vive isso na pele nos ajuda a entender esse cotidiano. No portal Brasil de Direitos, ao abordar os desafios enfrentados pelas pessoas trans no mercado de trabalho, foi narrada a vivência de Ana, uma mulher trans de 32 anos que, por cinco anos, trabalhou em um frigorífico onde teve sua identidade de gênero constantemente desrespeitada por superiores, sendo obrigada a utilizar o vestiário masculino e a se despir diante de dezenas de homens. “Eu me sentia um lixo”, relata Ana.

    Em dezembro do ano passado, a Justiça do Trabalho determinou que a empresa a indenizasse pela discriminação sofrida. Mas essa experiência não é isolada. Quantas pessoas trans já passaram, e ainda passam por situações semelhantes sem qualquer acesso à justiça ou reparação?

    A pesquisa “Demitindo o preconceito”, do Center for Talent Innovation, ajuda a dimensionar este problema quando revela que 17% dos entrevistados LGBTQIAPN+  já foram vítimas de discriminação direta no ambiente corporativo. 

     

    Presença na Cultura e na Mídia 

    Nos anos 80, rompendo barreiras e abrindo caminhos, o Brasil se deparou com Rogéria nas telinhas, ela que se auto intitulava “a travesti da família brasileira” era atriz, cantora, apresentadora e ocupou um espaço até então inimaginável para pessoas trans, em um período em que a presença na mídia era quase inexistente.

    Hoje, ao ligar a TV Globo e acompanhar a novela das 9, podemos ver a atriz Gabriela Loran em destaque, interpretando a farmacêutica Viviane. Nas rádios, a voz de Liniker ecoa como os seus sucessos. Nas artes visuais, trabalhos como os de Fefa Lins ocupam espaços e provocam sensações. Avanços que não surgiram por acaso e vão além do talento, são fruto de um caminho construído com coragem e persistência. O desejo é que essas trajetórias deixem de ser exceção, para que outras ‘Gabrielas’, ‘Rogérias’, ‘Linikers’ e ‘Felipes’ possam existir, criar e ser reconhecidos.

    Presença na política

    Por muito tempo o campo da política foi marcado pela ausência quase total de pessoas trans. Nos últimos anos esse cenário começou a apresentar sinais importantes de mudança: em 2024, cerca de 967 candidatos de todo o país se declaram transgêneros em registro no TSE, e neste mesmo ano o Brasil elegeu 27 vereadores e vereadoras transexuais nas eleições municipais. Os números apontam para uma nova narrativa, que posiciona pessoas trans como agentes políticos capazes de propor, debater e decidir políticas públicas a partir de suas próprias vivências.

    Essas trajetórias inspiram, abrem caminhos e nos fazem imaginar: e se aquele número de 967 candidaturas crescesse ainda mais? Se dobrasse, triplicasse? Ampliar essa presença é ampliar vozes, fortalecer a representatividade e tornar a democracia, de fato, mais plural.

    Apoio real

    O dia 29 de janeiro vem como um lembrete, é claro, mas essa luta não pode se limitar a uma data no calendário, ao longo deste blogpost, fica evidente como o apoio contínuo a grupos, movimentos e organizações que defendem os direitos da população LGBTQIAPN+ é não só urgente, mas estratégico.

    É nesse contexto que entra o Fundo Brasil de Direitos Humanos, que por meio do Edital LGBTQIAPN+: Defendendo Direitos 2026, convida organizações da sociedade civil, grupos, coletivos e movimentos atuantes a apresentarem propostas para apoio no enfrentamento às violações e na defesa dos direitos humanos.

    O edital oferece recursos financeiros de natureza flexível, garantindo autonomia para que as organizações definam, em seus orçamentos, as áreas prioritárias para o fortalecimento institucional, de acordo com seus objetivos e realidades.

    O resultado do processo de seleção será informado exclusivamente por meio do site e das redes sociais do Fundo Brasil, a partir de 25/05/2026.

    Garantir esses direitos é um compromisso permanente!

     

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