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Carnaval é ativismo? Foliões engajados mostram que sim

Debate em torno da folia envolve rejeição a marchinhas preconceituosas e avaliação de que o Carnaval também é palco para protestos

24 fevereiro 2017

- por Fundo Brasil de Direitos Humanos -

Em janeiro do ano passado, as feministas negras Djamila Ribeiro e Stephanie Ribeiro publicaram no blog #AgoraÉQueSãoElas o artigo A Mulata Globeleza: Um Manifesto em que pediram o fim da personagem criada pela Rede Globo para divulgar o Carnaval e a cobertura realizada pela emissora: uma mulher negra que surgia na tela sambando, nua e com o corpo cheio de purpurina.

“Esse manifesto não só clama pelo fim da Globeleza como nasce da urgência do grito (há muito abafado) pela abertura e incorporação de novos papéis e espaços para mulheres negras no meio artístico brasileiro”, escreveram. “Um novo paradigma precisa despontar no horizonte dos artistas negros sempre tão talentosos, porém, ainda sem o abraço do reconhecimento”.

O artigo, compartilhado milhares de vezes nas redes sociais, denunciou a exposição da mulher, o machismo, o racismo. Sintetizou a indignação do movimento feminista negro contra a insistência em divulgar a imagem da mulher em papéis “subalternos” e “exotificados”.

Pois as vozes de Djamila, Stephanie e milhares de outras mulheres negras parecem ter sido ouvidas. Em 2017, a vinheta do Carnaval Globeleza celebra os vários ritmos da festa, como o frevo, o maracatu, o axé, o bumba meu boi e a festa na avenida. Érika Moura, a Globeleza atual, aparece vestida com várias fantasias e celebra a diversidade. É acompanhada por cinco dançarinos nas coreografias.

“Finalmente mudamos a perspectiva, graças a movimentos em prol dos direitos das mulheres, da diversidade na mídia, da retratação do nosso país de forma a contemplar a complexidade e multiplicidade cultural do nosso povo”, escreveu Juliana Luna no blog AZMina. Luna é estrategista de comunicação, articuladora urbana, artista e embaixadora cultural.

Não é só no caso Globeleza que o ativismo pela defesa da igualdade e o enfrentamento aos preconceitos conquistou espaço nos últimos tempos. Marchinhas consideradas preconceituosas por vários segmentos, como “O teu cabelo não nega”, “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão” foram retiradas do repertório de blocos carnavalescos.

A polêmica – há também defensores das marchinhas tradicionais – ganhou espaço na mídia e provoca reflexão sobre as letras compostas no passado.

“Sou a menina preta, do cabelo crespo e passei a minha vida toda escutando que ter cabelo crespo era algo ruim. A arte pode colaborar para evidenciar preconceitos ou superar”, declarou a jornalista Maíra Azevedo no programa Encontro com Fátima Bernardes, que debateu o assunto.

Em texto publicado no Facebook, o músico Thiago França, criador do bloco A Espetacular Charanga do França, de São Paulo, oficializou a retirada de O teu cabelo não nega do repertório.

“É racismo demais para o meu gosto”, disse.

Ele ponderou que todo artista retrata o seu tempo e o compositor Lamartine Babo, autor da música, não inventou o racismo ou o validou no verso. É preciso lembrar o contexto da época. Mesmo assim, França não inclui a canção no desfile da Charanga.

“Não é uma tentativa de apagar o passado nem de deletar da história uma obra de arte. O caso é que em 2017 dá um amargo na boca ter que dizer: mas como a cor não pega mulata”, completa o músico.

Apesar de se mostrar avessa à polêmica, a jornalista Flávia Oliveira contou, também em uma postagem no Facebook, que há décadas parou de cantar e dançar quando está num baile e começa a tocar o que ela chama de clássico racista de Lamartine Babo.

“Quem é preto neste país sabe o caminho longo e doloroso da afirmação de identidade. A gente leva anos para se assumir negro, para encher a boca e dizer: ‘Sou negra e sou linda. Sou legado de uma cultura maravilhosa, de um povo que construiu este país’. Aí vem alguém dizer que mulata é uma palavra linda, blablablá (nove bocejos). Gente, me erra!”, escreveu.

Já o bloco Mulheres Rodadas, do Rio, debateu se tocaria ou não Tropicália, canção de Caetano Veloso que utiliza a palavra mulata. A decisão foi de incluir a música no repertório.

“Acreditamos no poder da arte de transformar a sociedade a partir da reflexão que ela proporciona. E o Carnaval não poderia ser um momento mais especial”, justificaram em um comunicado.

Caetano entrou na polêmica de um jeito…Caetano.

“Meu pai era mulato. Penso em mim como mulato. Eu amo a palavra”, declarou ao The economist.

Agronegócio

Outro exemplo da defesa de direitos no Carnaval é o tema escolhido pela escola de samba Imperatriz Leopoldinense, uma das mais tradicionais do Carnaval carioca: “Xingu – o clamor que vem da floresta”.

O enredo mostra que o entorno do Parque Indígena do Xingu, localizado no Mato Grosso, na porção sul da Amazônia brasileira, sofre os impactos do desmatamento, dos agrotóxicos e da obra da usina hidrelétrica de Belo Monte.

A escolha feita pela escola de samba desagradou o setor do agronegócio e representantes do segmento divulgaram manifestações de repúdio.

“Segundo relatos da própria população que vive ali, a região do Xingu ainda é alvo de disputas e constantes conflitos. A produção muitas vezes sem controle, as derrubadas, as queimadas e outros feitos desenfreados em nome do progresso e do desenvolvimento afetam de forma drástica o meio ambiente e comprometem o futuro de gerações vindouras”, argumenta texto publicado no site da Imperatriz.

Ativismo

Em artigo publicado no O Globo às vésperas do Carnaval, Flávia Oliveira arrematou a discussão sobre quem tem dúvidas sobre aproveitar a folia diante de um cenário com tanta necessidade de luta contra os retrocessos.

“Carnaval é ativismo”, ela escreveu.

Para a jornalista, o Carnaval é a maior e mais democrática celebração brasileira e, ao contrário de entorpecer, ativa disputas. Na opinião dela, a festa é, ao mesmo tempo, celebração, protesto, cidadania, tolerância e inclusão.

“O Carnaval é o avesso da alienação. Viva ele”, conclui.

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