
D. Pedro Casaldáliga, bispo dos pobres e povos indígenas. (Foto: Divulgação/ Vatican News)
Logo que foi nomeado bispo de São Félix do Araguaia, em 1971, D. Pedro Casaldáliga (1928-2020) publicou uma carta pastoral em que criticava o grande latifúndio e o modelo de desenvolvimento econômico então adotado pelo Brasil. Seu foco eram, em especial, os grandes projetos desenvolvimentistas, iniciados pela ditadura militar no eixo sul-sudeste da Amazônia. “Não foi uma carta pastoral apenas teórica, de considerações religiosas, políticas ou econômicas; era uma carta que dava os detalhes minúsculos das injustiças da região”, disse ele ao Fundo Brasil em 2011.
Foi, também, uma demonstração de coragem. Localizado na fronteira leste do Mato Grosso, já na divisa com o Tocantins, a região de São Félix do Araguaia vivenciava a rápida expansão da fronteira agropecuária, feita às custas das populações indígenas e tradicionais. Na contramão desse movimento, Pedro (como preferia ser chamado, sem o “Dom”), posicionou-se em favor da reforma agrária. “Os governos têm uma dívida com a reforma agrária e, também, com a agrícola. Não atender a essa necessidade significa impulsionar milhões de famílias para o êxodo à cidade, onde encontrarão o desemprego e a violência, que são fatais, principalmente para a juventude. É preciso ter a possibilidade de viver dignamente da terra, para acabar com o trabalho escravo, o subemprego e a mão de obra barata no campo”, avaliou.
A atuação lhe valeu a pecha de comunista e tornou D. Pedro alvo de ameaças de morte — algo que se repetiu em diversas ocasiões ao longo de quase cinco décadas de atividade. Nascido na Catalunha, de onde veio para o Brasil no final dos anos 1960, o bispo foi alvo de cinco processos de expulsão do Brasil durante a ditadura militar. Na época, contou com a intervenção do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.
Seu comprometimento com os mais pobres, os sem terra, os povos indígenas e as comunidades tradicionais, no entanto, nunca arrefeceu. Casaldáliga morreu em 8 de agosto de 2020. Seu corpo foi velado descalço. Sobre ele, uma estola de retalhos vinda da Nicarágua e uma cruz pastoral feita por indígenas Xavante.
Ao lado de Margarida Genevois, Abdias Nascimento e Rose Marie Muraro, D. Pedro é uma dos fundadores do Fundo Brasil de Direitos Humanos.
A fundação completa 20 anos em 2026. Como parte das celebrações, revisita a história e o legado dessas figuras tão importantes para os direitos humanos no país.
O perfil que você lê abaixo foi originalmente publicado na revista que celebrou os 5 anos do Fundo Brasil, em 2011.
Direito à terra: um direito pela vida
Nos anos 70, as fronteiras agropecuárias se expandiram por territórios das regiões Centro-Oeste e Norte do país, que, até então, eram áreas preservadas e habitadas apenas por populações locais. Dom Pedro Casaldáliga foi testemunha disso. Morador de São Félix, município amazônico do Mato Grosso, desde aquela época, viu com tristeza a devastação que o modelo econômico imposto causou em boa parte da Amazônia. Nascido em Barcelona, na Espanha, Dom Pedro mudou-se para o Brasil em 1968, tendo sido nomeado bispo da Igreja Católica em 1971. Aqui, foi um dos ícones da Teologia da Libertação.
Seu lema, “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”, inspirou e orientou todo o seu trabalho como líder religioso e defensor dos direitos pela terra das comunidades tradicionais.
Durante mais de quatro décadas, enfrentou grandes e poderosos ruralistas, as empresas exploradoras da região e os políticos locais, na sua luta contra o trabalho escravo, a degradação do meio ambiente e os conflitos fundiários. “Continuamos sendo latifúndio, [há] 500 anos. Continuamos sendo exclusão e violência no campo, acumulação de terra. Continuamos sendo agronegócio, o latifúndio travestido. Continuamos sendo tóxico, depredação”, afirmou em entrevista ao Fundo Brasil em 2011, por ocasião do aniversário de cinco anos da Fundação.
Como um dos principais ativistas pela reforma agrária, participou ativamente da fundação do Conselho Indigenista Missionário (1972) e da Comissão Pastoral da Terra (1975), criados para tratar da questão agrária e dos direitos dos povos indígenas no Brasil.
“Os governos têm uma dívida com a reforma agrária e, também, com a agrícola. Não atender a essa necessidade significa impulsionar milhões de famílias para o êxodo à cidade, onde encontrarão o desemprego e a violência, que são fatais, principalmente para a juventude. É preciso ter a possibilidade de viver dignamente da terra, para acabar com o trabalho escravo, o subemprego e a mão de obra barata no campo”, avaliou.
A intensa atividade literária do bispo foi um dos instrumentos de sua militância, pela qual expressava sua indignação contra o sistema socioeconômico do Brasil rural. No mesmo ano em que foi nomeado bispo de São Félix do Araguaia, Dom Pedro escreveu a Carta Pastoral “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”.
No texto, denunciou os prejuízos e os danos causados pelos latifundiários e os grandes projetos desenvolvimentistas, iniciados pela ditadura militar no eixo sul-sudeste da Amazônia. “O fato de ser nomeado bispo me possibilitava falar. Eu pretendia dar um grito [contra] a casa-grande e a senzala… Uns poucos tendo tudo e uns muitos sendo escravos. A carta foi assumida por muitas forças de esquerda e da Igreja mais comprometida. Nós apresentamos dados, nomes, processos. Não foi uma carta pastoral apenas teórica, de considerações religiosas, políticas ou econômicas; era uma carta que dava os detalhes minúsculos das injustiças da região.”
Por causa de resistência às violações de direitos humanos Dom Pedro foi ameaçado de morte várias vezes. Durante a ditadura militar, foi alvo de cinco processos de expulsão do Brasil. Na época, contou com a intervenção do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. “A própria repressão estimulava a nossa responsabilidade por todo o panorama. Não podíamos prescindir de falar de terra, censurar o governo, criticar a polícia. O que era evidente para a nossa consciência poderia se transformar num grito para os outros que buscavam a libertação”, recordou.
Quando conversou com o Fundo Brasil, em 2011, D. Pedro acreditava que o modelo de desenvolvimento do país ainda era equivocado. Naqueles anos, discutia-se a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu. Inaugurada em 2016, a usina bloqueou o fluxo de um dos maiores rios da Amazônia, forçou o deslocamento da população local, trouxe prejuízos sociais e ambientais para a região: “Todos os grandes projetos, por definição, já são antipopulares e antieconômicos. [Eles] são para a acumulação acelerada de capital e investimento. Para o povo [local], fará falta o ritmo normal de vida, enquanto os elefantes brancos ficam por aí, como a transposição do rio São Francisco e [a hidrelétrica de] Belo Monte. É a obsessão do grande e do imediato”, refletiu.
Dom Pedro acreditava, no entanto, que se criara uma nova consciência em relação a direitos humanos: “Falamos de direitos com toda a naturalidade, mas, em décadas passadas, era uma palavra esquisita, de alguns fanáticos. Hoje percebemos que é uma questão radicalmente vital e essencial. Sinto que, em certa medida, os direitos humanos ainda são luxo e privilégio de alguns, que se veem mais humanos que outros humanos. E, por outro lado, quando as condições de vida humana são muito precárias, a própria dignidade humana fi ca proibida; há muita gente que vive a pensar apenas na sobrevivência”.
Mesmo após o seu pedido de renúncia à prelazia, em 2003, sendo nomeado como seu sucessor o bispo Leonardo Ulrich Steiner, Dom Pedro continuou lutando. Escritor e poeta, ele manteve sua militância incansável contra as injustiças no campo




























