
A escritora feminista, e instituidora do Fundo Brasil, Rose Marie Muraro em 2011
Foi uma freira que ensinou Rose Marie Muraro – figura emblemática do ativismo por direitos no país e uma das instituidoras do Fundo Brasil de Direitos Humanos – o que era o feminismo. Aconteceu no começo dos anos 1960: recém-saída de um casamento opressor, Muraro se aproximara das alas mais à esquerda da Igreja Católica. Foi quando conheceu uma certa Madre Cristina, freira de São Paulo que lhe presenteou com um exemplar de “A mística feminina”.
O livro fora publicado pouco antes pela estadunidense Betty Friedan, e narra os processos pelos quais a sociedade capitalista tenta relegar mulheres aos papéis de mães e esposas. “Eu me vi retratada ali”, disse Muraro.
Ela conta essa passagem curiosa durante uma das entrevistas para o documentário “Uma mulher impossível”. (veja aqui, a partir do minuto 11:23). O filme, lançado em 2015 pela cineasta Marcia Derraik, conta a história de Muraro pela perspectiva da ativista.
Considerada uma intelectual pública “incendiária” em seu tempo ( ela própria dizia querer “botar fogo no mundo”), Muraro usou sua voz, e sua proximidade com os setores progressistas da Igreja Católica, para confundir o regime militar, defender a igualdade entre os gêneros e a liberação sexual da mulher.
“O assunto mulher era um assunto sem importância para os militares e para a sociedade como um todo. O pessoal não sabia da existência do feminismo”, diz, a certa altura do documentário.
Ela se encarregou de mudar esse cenário. Crente de que os livros incendiariam o mundo, Muraro trouxe Friedan para palestrar no Brasil ainda no início dos anos 1970. Tempos depois, já na década de 1990, fundou a Rosa dos Ventos, primeira editora feminista do país. Entre um momento e outro, escreveu mais de 30 livros, fundou uma organizção de mulheres dedicada a difundir ideias feministas e as articulou com a luta por justiça social. “As feministas defendem os homens também”, explicou. “Porque aproveitou-se da entrada da mulher no mercado de trabalho para baixar, drasticamente, a massa salarial de homens e mulheres. Quem venceu foi o sistema, e as feministas sabem disso”.
O trabalho lhe valeu o título de “patrona do feminismo no Brasil”. A honraria está inscrita em lei – lhe foi concedida pelo Congresso Nacional em 2005.
Morta em 2014, Muraro é, ao lado de D. Pedro Casaldáliga, Abdias Nascimento e Margarida Genevois, uma das instituidoras do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Ela é, também, a figura homenageada pelo Edital Geral 2026 — Fortalecendo direitos e gestando um novo mundo.
A fundação completa 20 anos em 2026. Como parte das celebrações, o Fundo revisita a história e o legado de seus instituidores.
O perfil que você lê abaixo foi originalmente publicado na revista que celebrou os 5 anos do Fundo Brasil, em 2011.
As celebrações pelas duas décadas de trabalho da Fundação vão acontecer ao longo de todo o ano de 2026. Siga conosco para acompanhar as novidades!
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O feminismo transgressor de Rose Marie Muraro
A violência de um mundo sexista não se dá apenas de forma física, mas também por maneiras mais sutis, arraigadas nos hábitos mais simples, nos discursos mais rotineiros e nas concepções mais dominantes.
Diante disso, Rose Marie Muraro, 81, sabia que essa violência não poderia ser vencida pela força. Mas as ideias e a possibilidade de expressá-las e disseminá-las foram um caminho pelo qual as mulheres poderiam romper uma lógica discriminatória e a dominação, ambas cruelmente consideradas naturais.
Como escritora e editora, Rose Marie deu voz a suas posições audaciosas e ideias progressistas sobre temas relacionados à questão de gênero.
Sua produção literária foi dedicada aos direitos das mulheres: “Fui trabalhar com a ‘mulher’ porque achava que era a partir dela que as coisas iam melhorar. Os direitos humanos fundamentalmente têm a ver com a condição dela. Se você mexe com a sua condição, você mexe com a dos filhos dela e, consequentemente, com a cadeia de gerações”, diz.
Nos anos 60, como diretora editorial da Editora Vozes, colaborou para a mobilização de dois importantes movimentos sociais no Brasil, o da emancipação feminina e o da Teologia da Libertação, com Leonardo Boff.
Durante os últimos 40 anos, escreveu mais de 30 livros, muitos considerados polêmicos, na época em que foram publicados, como o “Sexualidade da Mulher Brasileira Corpo e Classe Social no Brasil”, de 1983. “Automação e o Futuro do Homem” (1966) e “Libertação Sexual da Mulher” (1975) foram censurados pelos militares, por serem considerados pornográficos.
Por sua contribuição intelectual e militância, é considerada ícone do movimento feminista no país. A sua atuação foi marcante durante a década de 1970; seu discurso revolucionário e libertário foi uma das formas de resistência ao regime militar.
Em 1986, após a publicação de “A Erótica Cristã”, foi expulsa da editora, por represália dos setores conservadores da Igreja Católica.
Recentemente recebeu o prêmio Teotônio Vilela, do Senado Federal, em comemoração aos 20 anos da anistia no Brasil. A percepção equivocada de que a mulher é o sexo frágil logo se desfaz, para quem conhece essa mulher corajosa e despachada. “Quando eu comecei a trabalhar, nos anos 1970, eu estava sozinha, dando a cara a tapa para os militares. Eu era doida, não tinha medo de nada”, recorda os tempos violentos da repressão.
Rose Marie lembra que era proibido se reunir, mas isso não impediu a mobilização e a fundação das primeiras organizações feministas no país. Em 1975, com mulheres do Partido Comunista de São Paulo, ela fundou o Centro de Desenvolvimento da Mulher Paulista, dedicado a organizar e a mobilizar mulheres de classe média e jovens profissionais liberais, para que difundissem a discussão feminista entre as classes populares. “A gente foi desenvolvendo uma luta com projetos políticos, de ir a favelas e tudo, mas isso não era financiado. A gente fazia entrevistas, sabia da necessidade das mulheres, trabalhava pela descriminalização do aborto, fazia marchas”, conta.
O envolvimento com os direitos humanos fez parte praticamente de toda a sua vida. A sua primeira atividade foi com Dom Helder Câmara, aos 15 anos. Na época, ingressou em um dos grupos de Ação Católica Estudantil, por onde se envolveu intensamente com os movimentos sociais.
Outro detalhe surpreendente de sua trajetória é o fato de ter nascido praticamente cega e ter recuperado a visão apenas aos 66 anos. Quando se viu pela primeira vez no espelho, disse: “Sei hoje que sou uma mulher muito bonita”.
Hoje, Rose Marie avalia que o movimento feminista é grande no mundo todo, inclusive no Brasil, e que teve conquistas importantes, como a descriminalização do aborto em alguns países. Contudo ela afi rma que há ainda muito por fazer, para que a assimetria de gênero seja compensada.
Para ela, uma das formas de garantir que a mulher tenha acesso a seus direitos é pelo seu empoderamento, conquistado pela sua autonomia econômica.
Sua contribuição para a efetivação dos direitos humanos foi reconhecida diversas vezes. Foi eleita nove vezes como “A Mulher do Ano”. Em 1990 e 1999, recebeu, da revista Desfile, o título de Mulher do Século. Em 2003, foi nomeada conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e, em 2006, foi nomeada Patrona do Feminismo Brasileiro.




























