
Margarida Genevois, instituidora do Fundo Brasil
Nas muitas entrevistas que deu ao longo dos seus 103 anos de vida, completados neste 10 de março, Margarida Genevois — uma das instituidoras do Fundo Brasil — sempre disse ser muito tímida. A afirmação surpreende quem conhece a ousadia da sua atuação em defesa dos direitos humanos.
Na década de 1970, durante um dos períodos mais virulentos da Ditadura Militar, a socióloga Margarida integrou a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo. Criada por iniciativa do Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, a instituição prestava assistência jurídica a pessoas perseguidas pelas ditaduras: a brasileira e também aquelas de outros países latino-americanos.
Cabia a Margarida receber as pessoas perseguidas pela repressão, colher informações e encaminhá-las para onde pudessem receber ajuda. A Comissão de Justiça e Paz protegia os perseguidos e seus familiares por meio da esfera jurídica e também oferecia acolhimento. Não era tarefa fácil. Muitos advogados não aceitavam defender presos ou perseguidos políticos. Médicos recusavam atendimentos. “Os que aceitavam eram heróis. Arriscavam a vida, as carreiras”, disse Margarida ao Fundo Brasil em 2016.
Sua atuação não parava aí. Falante de francês (língua em que foi alfabetizada e idioma do marido), Margarida circulava pela Europa em busca de recursos para financiar as atividades da Comissão. Levava, na mala, notícias do Brasil que a ditadura se esforçava para abafar. “Por meio da Igreja, mandávamos as notícias para o exterior, o que ajudava a evitar muitas arbitrariedades, pois denunciavam as mentiras que eles tentavam propagar”, contou Margarida anos atrás, durante seminário na Faculdade de Direitos da USP.
Essa atuação aguerrida chegou a ser considerada, pelas pessoas de sua própria família, como atípica demais para uma mulher com origens sociais como a dela. Carioca, Margarida nasceu em uma família da alta elite fluminense (ela descende dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro, contou certa vez, em entrevista ao Museu da Pessoa). O marido, um engenheiro francês que trabalhava para a companhia Rhodia, temia que a militância da esposa causasse problemas a ela e aos filhos. “A minha visão aguçada no sentido de uma justiça social, foi considerada – por ele e por minha mãe – péssima influência para minhas filhas. A mais velha envolveu-se no movimento estudantil e foi presa”, lembrou, na mesma entrevista.
Esses temores não a impediram de continuar atuando contra o regime de exceção. Nem de, anos mais tarde, interpor-se a garimpeiros e lavradores para evitar um conflito armado na região do Araguaia. A história é narrada pela revista Sul 21 com base na biografia escrita pelo jornalista Camilo Vanucchi. Na ocasião, Margarida disse não ter sentido medo, somente indignação. Década depois, admitiu: “Nunca senti tanto medo na vida”
Essa trajetória, longeva e arrojada, valeu a Margarida o título de Dama dos Direitos Humanos do Brasil. Ao lado de D. Pedro Casaldáliga, Abdias Nascimento e Rose Marie Muraro, Margarida é uma das instituidoras do Fundo Brasil de Direitos Humanos.
A fundação completa 20 anos em 2026. Como parte das celebrações, o Fundo revisita a história e o legado dessas figuras tão importantes para os direitos humanos no país.
O perfil que você lê abaixo foi originalmente publicado na revista que celebrou os 5 anos do Fundo Brasil, em 2011.
Margarida Genevois: justiça e educação como caminhos para os direitos humanos
Margarida lutou contra as violações de direitos durante a ditadura militar no Brasil, defendendo presos políticos e lutando pela redemocratização
Um dos momentos mais críticos para os direitos humanos no Brasil, certamente, foi o período da ditadura militar, que se iniciou logo após o golpe de 1964 e durou por mais de duas décadas. Dali em diante, os cidadãos tiveram direitos – principalmente os políticos – restringidos; muitos caíram na clandestinidade, por suas atividades e posições contrárias ao governo, que passou a reprimir a oposição com truculência. A época também foi marcada pelo aumento das desigualdades sociais. Parte da população estava impedida de reivindicar seus direitos e parecia condenada a se resignar com a penúria social e econômica a que estava submetida, por causa da repressão e do desconhecimento desses direitos.
Para Margarida Genevois, uma das instituidoras do Fundo Brasil, é necessário que as pessoas tenham clara a noção de dignidade, para, então, compreenderem os seus direitos e deveres na sociedade. Foi no contexto do regime autoritário que o seu ativismo pelos direitos humanos se tornou intenso. Ao passo que o governo endurecia e expunha os opositores a uma série de violações e a uma condição de temor e vulnerabilidade, mais Margarida se envolvia com a defesa de direitos dos cidadãos, como o dos perseguidos políticos.
Sua atuação se deu, principalmente, quando se mudou para São Paulo, em 1967, e passou a fazer parte da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de São Paulo, onde militou por 25 anos. Com Dom Paulo Evaristo Arns, lutou pela defesa dos presos políticos, contra as prisões arbitrárias do governo e pelo retorno do Estado de Direito ao país. Também acolheu refugiados políticos, principalmente aqueles que fugiam das ditaduras do Chile, Argentina e Uruguai; a essas pessoas, providenciou proteção judicial, sempre que possível.
Margarida também participou da busca de desaparecidos do regime e relatou esses casos de desaparecimentos e torturas a organizações internacionais. Teve papel importante no processo que culminou na anistia dos opositores políticos e no retorno dos exilados.Durante sua trajetória, posicionou-se contra a lei de segurança nacional e a pena de morte.
Após a redemocratização do Brasil, Margarida continuou a protestar contra a injustiça, em favor dos desempregados, dos sem-terras e contra a tortura e os maus-tratos de jovens presos em instituições do sistema socioeducativo.
Antes da ditadura militar, Margarida já havia se confrontado com as injustiças sociais. Nascida em uma das famílias mais ricas do Rio de Janeiro, ela se deparou com a dura realidade das famílias que viviam no campo, quando se mudou para os arredores da cidade de Campinas, em São Paulo, logo após o seu casamento. Lá, percebeu que o assistencialismo por si só não bastaria para enfrentar um problema estrutural.
Iniciou seu trabalho na Fazenda São Francisco, que pertencia à indústria Rhodia, onde seu marido trabalhava. Margarida foi movida a agir, diante da pobreza e da ausência de recursos dos trabalhadores. Nessa fazenda, onde vivia uma comunidade de 2,5 mil pessoas, realizou programas de atendimento a crianças desnutridas e de orientação a mulheres sobre cuidados maternos.
Com as mulheres da região, conseguiu a criação de creches, posto de puericultura e clube de mães para os trabalhadores do local em que vivia, além de fundar o Jornal Feminino, direcionado para as mulheres da comunidade.
O resultado disso foi a queda da mortalidade infantil em Campinas. “Se numa sociedade as pessoas não entendem que têm direitos, as coisas não vão para frente. É a luta por direitos que impulsiona a luta social”, diz.
Desde então, Margarida esteve envolvida ativamente com a defesa dos direitos humanos, em especial dos grupos sociais mais vulneráveis. “Minha vida toda trabalhei com os direitos humanos. Direitos humanos é uma luta apaixonante. É um micróbio que, quando pega a gente, não tem vacina, não tem tratamento, você fica para o resto da vida motivado e apaixonado por isso.”
Nos últimos anos, Margarida passou a se dedicar a promover a educação para os direitos humanos. “Depois de muitos tipos de trabalho, cheguei à conclusão de que a coisa mais útil a fazer é a educação em direitos humanos”, afirma. Ela esclarece que a educação em que acredita não se restringe à educação formal, mas se refere principalmente à transmissão de valores. “Quem acha, por exemplo, que direitos humanos é coisa de bandido, está pouco informado. E as pessoas mal informadas não sabem olhar em volta”, avalia.
Para ela, é importante que a reivindicação por direitos seja solidária: “Se você tem direitos, os outros também têm, porque eles são iguais a você na mesma dignidade, não há ser superior. É por isso que se tem de lutar pelos seus direitos, mas também pelos dos outros. Os direitos são interligados”, diz.




























