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Responsabilidade social ainda não incluiu Direitos Humanos, dizem empresários

20 dezembro 2007

- por Fundo Brasil de Direitos Humanos -

Nos últimos dez anos, o número de empresas de grande porte que têm adotado o preceito da responsabilidade social corporativa aumentou no Brasil. Nesse período, foram criados e se fortaleceram iniciativas como o Instituto Ethos de Responsabilidade Social (que nasceu com dez associados e conta hoje com 1280 empresas participantes) e o Pacto Global da ONU – para citar as mais conhecidas no Brasil -, ambas responsáveis pela universalização do princípio de que a responsabilidade social deixou de ser uma opção para se tornar uma condição da gestão empresarial.

A avaliação é do empresário Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, que participou, juntamente com Oded Grajew, também diretor do Ethos, Valdemar Oliveira (Maneto), representante da Fundação Avina, e Fernando Rossetti, secretário geral do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas para Investimento Social Privado), de um debate sobre investimento privado em Direitos Humanos, promovido pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos (FBDH) durante o evento de lançamento do seu Edital 2008, na última quinta feira (13).

Segundo Young, avanços importantes como a extensão da fiscalização do cumprimento da legislação trabalhista à cadeia produtiva – combate ao trabalho infantil e escravo também junto aos fornecedores de matéria prima, por exemplo – se “popularizaram”, assim como cresceu o número de iniciativas privadas de apoio a projetos sociais.

Por outro lado, ponderou o empresário, o discurso social muitas vezes é bem mais forte do que o investimento real e a prática cotidiana das empresas. “Muitas vezes o discurso dos dirigentes empresariais é muito razoável, mas quando se coloca a empresa sob a lupa, o que se vê não é tão razoável assim”, afirmou Young. Prova disso, segundo ele, é o fato de que a grande maioria das empresas ainda não cumpre a premissa básica da responsabilidade social, que é a conformidade legal; ou seja, raramente o quociente de trabalhadores deficientes, jovens ou mulheres atinge o mínimo exigido por lei, por exemplo.

Na mesma direção, Oded Grajew ressaltou que outra prática corrente entre o empresariado é o financiamento ilegal de campanhas políticas, que amarra parlamentares e governantes a compromissos e interesses privados em detrimento do bem público e social e da ética. Para Grajew, como a natureza do segmento empresarial é o lucro, é preciso que a sociedade civil organizada pressione o setor a adotar princípios éticos mais abrangentes, uma vez que várias violações de Direitos Humanos só são asfixiadas pela via econômica -a exemplo do pacto contra o trabalho escravo, através do qual as empresas sancionam fornecedores envolvidos com o crime.

“Empresas com valores éticos ainda são uma minoria, mas é uma minoria que está crescendo e que tem que se unificar com as organizações da sociedade civil. As empresas podem fazer muito, para um lado ou para o outro, em função de seu poder econômico e de influência política”, afirmou Grajew.

Em relação a projetos específicos de Direitos Humanos, uma das principais bandeiras do Ethos, os dirigentes do Instituto avaliaram que ainda se faz necessária mais pressão da sociedade civil para que a questão entre na agenda do empresariado. Segundo Maneto, da Fundação Avina, entre as ações de responsabilidade social realmente é muito mais fácil encontrar investimentos em projetos pontuais do que em processos de intervenção na realidade ou de formação das comunidades para que a dinâmica da exclusão seja alterada.

Essa também é a avaliação do secretário geral do Gife, Fernando Rossetti. Segundo ele, os Direitos Humanos ainda não estão no mapa do investimento social privado, que prioriza largamente projetos de assistencialismo ou de caridade que tangenciam apenas os sintomas, dificilmente as causas da exclusão e das violações de Direitos Humanos. Tanto que 87% dos associados do Gife operam seus próprios projetos de assistência social, afirmou Rossetti.

No entanto, partindo do pressuposto de que a lógica empresarial é parte do problema da exclusão, ela também terá que fazer parte da solução, afirmou Maneto. Mas uma mudança no comportamento das empresas só será possível através do diálogo. E para que esse diálogo ocorra, tem que haver uma mudança na postura da militância dos Direitos Humanos tanto quanto na postura das empresas, afirmou Oliveira. Este é o grande desafio.

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