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Ativista ressalta a aliança entre negros e indígenas no Pará

Ativista relata sua atuação entre os povos indígenas do Mapuera

02 maio 2018

- por Cristina Camargo -

Tauã Souza e Silva em evento realizado pelo Fundo Brasil no final de 2017 (Foto: Ernesto Rodrigues)

Carioca e ex-estudante de uma escola da rede particular de ensino, Tauã Souza e Silva faz questão de levar a sua percepção de homem negro para os espaços em que atua. Foi assim na escola, onde a maior parte dos alunos era branca e é assim em sua atuação como ativista.

Tauã faz parte da Associação dos Povos Indígenas do Mapuera, no Pará, apoiada pelo Fundo Brasil por meio do projeto “Movimento Mais Direitos para os Indígenas do Rio Mapuera.

Oferece apoio logístico para as atividades e ajuda a fortalecer a movimentação não branca, a movimentação entre negros e indígenas.

O depoimento de Tauã é o segundo da série #DefensorXs, realizada pelo Fundo Brasil em seu site e nas redes sociais.

O principal objetivo do projeto é levar o debate sobre os direitos indígenas, levar formação para as aldeias. Faz muita diferença levar in loco, por conta da juventude que está lá e das mulheres, que geralmente ficam nas aldeias. E das pessoas que não saem muito das aldeias, não têm muito a oportunidade de estudar ou de estar na cidade.

Paralelamente às oficinas de direito indígena, existem as oficinas de capacitação para o uso de câmeras e edição.

A minha parte do trabalho é fazer o apoio logístico, fazer toda a parte de apoio para as oficinas. Enquanto as oficinas estão acontecendo, eu estou no background fazendo tudo o que precisa, conversando, explicando o que eles não entenderam, traduzindo. Algumas coisas eu tento pontuar porque vejo que nem sempre o tradutor compreende tudo.

Nasci no Rio de Janeiro, estudei em uma escola privada em que a maior parte das pessoas eram brancas. Minha mãe era professora de educação infantil, então eu tinha 100% de bolsa. Numa época em que minha mãe saiu, eu continuei com bolsa, porque eu era bom aluno e queriam que eu continuasse.

Depois me formei e comecei a trabalhar na comunicação da escola, filmando e editando. Depois me chamaram para trabalhar na coordenação pedagógica no ensino fundamental 2, do sexto ao nono ano, do pessoal entre dez e quinze anos.

Minha visão de mundo é sempre trazer a minha percepção enquanto negro para qualquer espaço em que vou. Trabalhando numa escola particular em que a maioria das pessoas eram brancas e eu era negro, era fundamental eu trazer para eles um outro ponto de vista.

Estou em Santarém para buscar essa raiz do negro. E os indígenas estão lá também, são meus amigos pessoais, então o trabalho é para fortalecer essa movimentação não branca, outras conexões possíveis entre negros e indígenas.

Acho que faz muita diferença para eles o fato de eu ser negro e estar trabalhando lá. Porque a referência deles no rio Mapuera de negros é só quilombola e muitas vezes existem aldeias em que nunca foi um negro, sou o primeiro a ir. Muitas vezes eles não têm conhecimento de que no sudeste, no Rio de Janeiro, tem muita gente negra. Tem gente negra na academia, que tem a capacidade de ir lá levar conhecimento.

Para mim é muito importante, porque aprendo muito nessa relação com eles. E para eles traz uma outra faceta da relação com o mundo não índio, que no caso deles são os caraioá – os não índios eles chamam de caraioá.

Já é muito natural no Brasil a aliança entre povos que não são brancos. Isso é muito natural nosso. O que a gente quer é se reconhecer e ser fortalecido. Para mim é muito natural existir essa aliança entre negros e indígenas.

Por exemplo, os caiçaras são um povo tradicional no sudeste, um povo da floresta que vive na Mata Atlântica e no mar e lá tem muita gente branca. Porque são a miscigenação dos europeus que chegaram com os indígenas que já estavam lá. Para mim, o caiçara é uma referência muito forte para descontruir a ideia do branco como único, a branquitude única. Existem outros brancos fazendo outras coisas. Os faxinalenses também. Muitas vezes o cara é polaco, vermelho, de olho azul, que está morando na floresta em casa de palha.

Rio

O rio Mapuera continua depois do rio Trombetas, então os negros e indígenas compartilham na verdade o mesmo rio até certo ponto. Para os indígenas waiwai e outros povos que moram no rio Mapuera e no Trombetas, acima da cachoeira porteira, que é a primeira do Trombetas, é território indígena. E para chegar à terra indígena, eles precisam passar pelo rio Trombetas, que é todo povoado pelos quilombolas. Existe uma relação muito próxima espacialmente entre eles.

Mesmo que hoje em dia a relação cultural não seja muito próxima, historicamente foi muito próxima. Porque os negros lá reconhecem que fugiram das fazendas de cacau e foram subindo o rio Trombetas até a primeira cachoeira, que é a “porteira da liberdade”. A partir de lá eles se sentiam mais seguros, atravessavam as cachoeiras e encontravam muitos povos indígenas que já moravam ali. Eles reconhecem que esses povos indígenas colaboraram com todo o conhecimento ambiental que existia. Isso foi fundamental para que os negros se estabelecessem.

Hoje, todos os quilombolas desceram para baixa da cachoeira porteira, para o rio Trombetas, e os indígenas (os waiwai) desceram nas guianas até o Brasil. Então, a conexão do rio Mapuera é Brasil e Guiana Inglesa. Porque os waiwai e os subgrupos que existem entre eles têm muita conexão com a Guiana Inglesa, inclusive muitos falam inglês, os avós só falavam o inglês waiwai.

O rio Mapuera fica no Brasil, mas nasce na Guiana Inglesa, então existe uma conexão forte entre os waiwai do Brasil e os da Guiana Inglesa. E hoje o Mapuera é um rio indígena, mas com conexão muito forte com o rio Trombetas, porque o caminho para Oriximiná só pode ser feito pelo Trombetas.

É uma conexão espacial e cultural também. No início do mês, muita gente vai buscar salário e bolsa família na cidade de Oriximiná, no porto é repleto de negros. A galera desce para pegar seus benefícios.

Porém, fora desse início de mês, os indígenas e os negros quase não estão na cidade.

Fundo Brasil

O projeto não iria existir sem o apoio do Fundo Brasil. Os direitos indígenas estão sendo discutidos e a capacitação audiovisual acontecendo por conta do apoio.

A última atividade do projeto será uma formação no Xingu, em Altamira, nas obras de Belo Monte. Vamos convidar um pessoal do Xingu Vivo para poder discutir a experiência que eles tiveram com a hidrelétrica – uma experiência ruim, de invasão e destruição do território indígena – para poder fazer um intercâmbio de experiências com o pessoal waiwai.

Os indígenas não lutam só pelos territórios deles, eles têm muitos recortes internos em relação a machismo, violência, que é importante eles ouvirem o que está sendo pensado por outras pessoas também.

Oriximiná é um lugar que precisa muito de investimentos em direitos humanos. Tem muitas coisas lá que precisam ser discutidas no campo e também na cidade.

O trabalho de vocês faz muita diferença. Está fazendo lá no rio Mapuera, sou testemunha.

Entrevista concedida a Cristina Camargo e Simone Nascimento

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