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    Início Nosso trabalho Mobilização Comunicação e visibilidade Blog Intolerância religiosa no Brasil: como ela ameaça direitos e vidas

    Intolerância religiosa no Brasil: como ela ameaça direitos e vidas

    15/10/2026
    6 min
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    Foto: Ògan Luiz Alves/ Acervo Fundo Brasil

     

    Eu respeito todos que têm fé, eu respeito todos que não a têm, eu respeito quem crê em um Deus, eu respeito quem não crê em ninguém. 
    Eu gosto de quem tem fé no verso, eu gosto de quem tem fé em si mesmo, eu gosto de quem tem fé no universo, e eu gosto de quem anda a esmo.

    Os trechos acima fazem parte do poema “RELIGARE” de AnaMari. Os versos viralizaram nas redes sociais entre 2017 e 2018 e até hoje são lembrados como referência poética quando o assunto é o respeito e a tolerância religiosa.

    O respeito à liberdade de fé é um debate global. Em 2015, durante um encontro inter-religioso realizado no Sri Lanka com a presença de líderes budistas, muçulmanos e hindus, o então papa Francisco enfatizou que as religiões devem superar as diferenças pelo bem da paz. Na ocasião, ele disse: 

    “Espero que a cooperação inter-religiosa e ecumênica prove que os homens e as mulheres não têm de esquecer a própria identidade, tanto étnica como religiosa, para viverem em harmonia com os seus irmãos e irmãs”.

    Perante a Lei, o Brasil é um Estado Laico. Essa garantia está expressa na Constituição Federal de 1988, que estabelece no artigo 5º, inciso VI, que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. 

    Além disso, o artigo 19 impede a União, os Estados e os Municípios de estabelecer, subsidiar ou embaraçar cultos ou igrejas.

    Em outras palavras, ser um Estado Laico é não ter uma religião oficial nem se misturar com dogmas religiosos. Isso não significa ser “antirreligião”, mas o papel do Estado é justamente proteger a liberdade de escolha e garantir que todas as pessoas sejam tratadas com o mesmo respeito, seja qual for a sua fé ou a ausência dela.

    A conta não fecha: intolerância religiosa em dados

    A intolerância religiosa disparou no Brasil em 2024: foram 3.853 violações registradas pelo Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. O número representa uma alta de mais de 80% em comparação a 2023, quando 2.128 ocorrências foram contabilizadas. 

    As religiões de matriz africana foram as mais atingidas, com a umbanda liderando o número de violações, seguida pelo candomblé. 

    E é aqui que precisamos pontuar a diferença entre intolerância religiosa e racismo religioso. 

    A intolerância pode atingir qualquer crença. Já aqui no Brasil, o racismo religioso é direcionado com mais frequência às tradições de matriz africana. Trata-se de uma violência que cruza o preconceito religioso com o racismo estrutural. 

    Para além da população de matriz africana, outros grupos também sofrem com a violência oriunda da intolerância e do racismo religioso como os povos indígenas, ciganos e muçulmanos que são alvos de preconceitos específicos. Nesses casos, a discriminação religiosa se cruza com a identidade étnica e cultural, alimentando o racismo estrutural no país.  

    Tanto o racismo religioso quanto a intolerância religiosa são considerados crimes pelas legislações brasileiras. Para denunciar, qualquer cidadão pode ligar para o Disque 100 (Direitos Humanos), um serviço gratuito que funciona 24 horas por dia. Mais informações, acesse: https://www.gov.br/pt-br/servicos/denunciar-violacao-de-direitos-humanos.

    Como a intolerância religiosa se manifesta no dia a dia?

    Nem sempre a intolerância religiosa surge em forma de violência extrema. Em muitos casos, ela se infiltra de maneira silenciosa nas rotinas e relações sociais, manifestando-se em gestos, falas e atitudes que tendem a ser naturalizadas.

    • Ambiente escolar e acadêmico: apelidos pejorativos e piadas dirigidas a estudantes devido à fé que professam ou quando alguém é impedido de frequentar a aula usando adereços de sua religião, como guias ou fios de contas – colares litúrgicos usados em religiões de matriz africana – turbantes ou véus.
    • Mercado de trabalho: recusar a contratação ou excluir veladamente qualquer candidato (a) ao identificar artefatos religiosos no vestuário, no nome, em redes sociais e etc. Também aplica-se qualquer piada, deboche ou desqualificação do conhecimento profissional do trabalhador com base na sua crença.
    • Serviços públicos: rejeitar ou atender de forma ríspida em postos de saúde, hospitais ou órgãos públicos qualquer pessoa com símbolos e vestimentas de religiões minoritárias.
    • Ambiente digital: insultar ou associar determinadas celebrações, entidades ou rituais ao “mal”, à “feitiçaria” ou à “imoralidade” em postagens de redes sociais. 
    • Violência patrimonial e convivência comunitária: invadir e destruir terreiros, igrejas, mesquitas, sinagogas e cemitérios, além de pichações em muros de casas e locais de culto, olhares de desprezo e boatos sobre famílias, indivíduos ou comunidades religiosas. 

    Por que apoiar o enfrentamento à intolerância religiosa é defender direitos humanos? 

    A liberdade de crença é a base para o exercício de diversos outros direitos fundamentais garantidos pela nossa Constituição e por tratados internacionais. Quando uma comunidade é perseguida, atacada ou impedida de professar sua fé, toda a engrenagem de direitos humanos daquela população entra em colapso. Apoiar financeiramente essa causa vai muito além de um debate sobre fé ou religiosidade, trata-se de um investimento direto na proteção de vidas e na defesa da democracia. 

    Ao longo de 20 anos de existência, o Fundo Brasil já apoiou diversos projetos de base que atuam no enfrentamento da intolerância religiosa como é o caso do Centro de Estudos Afro Brasileiro Ironides Rodrigues (CEABIR), no Rio de Janeiro, que capacitou sacerdotes e criou materiais educativos para que comunidades tradicionais conheçam e exijam seus direitos garantidos por lei. 

    Outro exemplo é Associação Comunitária dos Povos Ciganos do Condado Paraíba (ASCOCIC). Formada por famílias da etnia Calon no sertão paraibano, a organização é apoiada pelo Fundo Brasil no projeto de combate ao racismo estrutural e ao preconceito histórico que afetam a comunidade. Com foco na liderança das mulheres ciganas, a iniciativa promove escutas, resgate de memória e campanhas de mobilização para enfrentar a invisibilidade e garantir o acesso a políticas públicas fundamentais, provando que o apoio da filantropia é essencial para impulsionar a autonomia de povos marginalizados no país.

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