
Foto: Acontece LGBTI+ – Fabricio Bogas – Ato 17M/ Acervo Fundo Brasil
“Nóis tá aqui por cada bicha com a vida interrompida. Por causa da homofobia, ódio e intolerância. Resistimos no dia a dia. Pra poder chegar o dia que prevaleça respeito, igualdade e esperança”.
O trecho acima é uma rima do grupo Quebrada Queer, primeiro coletivo de rap LGBTQIAPN+ do Brasil e do mundo, formado em São Paulo, e que ficou em atividade entre 2018 e 2023. A letra em questão é mais que uma canção. É denúncia. É um clamor latente por emancipação.
Falar sobre os direitos da população LGBTQIAPN+ no Brasil é encarar um paradoxo profundo. De um lado, o país é palco da maior Parada do Orgulho do planeta e possui uma das produções intelectuais e artísticas mais vibrantes de corpos não normativos. De outro, “ostenta” há anos a trágica marca de ser um dos locais mais perigosos do planeta para travestis e pessoas trans.
De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), organização apoiado pelo Fundo Brasil, pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025. Em análise comparativa, a cada 4 dias uma pessoa trans teve sua vida ceifada, um número que pode ser ainda maior se levarmos em conta a subnotificação de casos. Trata-se de uma violência estrutural que não se limita à agressão física, mas se manifesta também no desrespeito ao nome social, na negação de atendimento humanizado na rede pública de saúde e no abandono familiar.
Quando ampliamos as lentes para demais identidades e orientações da sigla, as estatísticas são ainda maiores. Apenas nos primeiros três meses de 2026, 50 vidas foram interrompidas em contexto de LGBTIfobia. É o que aponta o Relatório Parcial sobre Mortes e Violências contra Pessoas LGBTI+ no Brasil de Janeiro a Março divulgado pela ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos).
Do total dessas ocorrências, a motivação por LGBTIfobia foi expressamente confirmada em 60% dos casos, somando 30 mortes. O levantamento destaca ainda a vulnerabilidade extrema de travestis e mulheres trans, que representaram 52% de todas as vítimas do período.
Entre o avanço legal e a realidade do cotidiano: a permanência do “não-lugar”
Apesar dos direitos conquistados no Judiciário, o silenciamento e a negação de corpos LGBTQIAPN+ continuam acontecendo todos os dias nas ruas, nos postos de saúde, nas escolas e no mercado de trabalho. Essa hostilidade constante tem uma consequência perversa e pouco falada: o deslocamento forçado.
“Você não pertence a este lugar”. Essa é a mensagem velada que os sujeitos LGBTQIAPN+ recebem das estruturas sociais quando a escola não acolhe, os hospitais discriminam e o mercado de trabalho fecha as portas. Alguns chegam até ser expulsos de casa, ficando sem apoio familiar e sem segurança em suas cidades.
O resultado? Jovens com identidades não normativas são forçadas a deixar seus territórios e seus afetos para trás. Esse êxodo em busca de abrigo, de um trabalho digno e do simples direito de continuar vivo mostra que, na prática, o direito à cidade é retirado dessas pessoas.
Iniciativas como a ONG LGBT+ Movimento, no Rio de Janeiro, mostram a urgência desse acolhimento ao oferecer aulas de Língua Portuguesa, assistência social e suporte jurídico para refugiados LGBTQIAPN+. Esse deslocamento forçado entre fronteiras internacionais começa a partir do momento em que as pessoas refugiadas não entram proteção dentro dos seus próprios países.
Em 2022, nas vésperas do Dia Internacional Contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos publicou um documento que expõe os desafios exacerbados das pessoas LGBT em busca de refúgio seguro. Segundo o documento “as pessoas LGBT deslocadas internamente em Estados que criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo e/ou identidades de gênero diversas raramente são reconhecidas e tratadas sistematicamente por instituições que apoiam pessoas deslocadas internamente”.
Proteger vidas custa e exige estrutura: quem financia essa luta?
Como uma fundação filantrópica independente, o Fundo Brasil desenvolve um amplo e contínuo trabalho de captação de recursos e articulação estratégica com investidores no Brasil e no exterior. A missão é traduzir essa captação em apoio financeiro direto, doado de forma flexível e desburocratizada para que associações e coletivos LGBTs possam executar seus projetos, estruturar suas sedes e manter suas lideranças em segurança.
O direito ao casamento civil igualitário, a alteração de nome e gênero no registro civil sem a necessidade de cirurgia, a criminalização da lgbtfobia e a inclusão do debate sobre identidade nas políticas públicas foram vitórias conquistadas por meio da auto-organização popular. Mas é preciso entender que auto-organização demanda recursos, e sem recursos não há articulação e mobilização.
Para que ativistas e movimentos possam se articular, pautar o Estado e sustentar disputas históricas, os aportes das fundações filantrópicas foram e continuam sendo o combustível indispensável que garante a existência, a autonomia e a perenidade de associações, grupos e coletivos.
O Fundo Brasil, por meio do Edital LGBTQIAPN+: Defendendo Direitos 2026, já destinou mais de XX milhões para projetos de organizações da sociedade civil, grupos, coletivos e movimentos que atuam no enfrentamento às violações e na defesa dos direitos humanos.
A Rede LGBT do Interior de Pernambuco, por exemplo, colocou no ar o aplicativo “Rugido”, por onde é possível denunciar casos de LGBTfobia. A partir dos dados coletados pelo app, o grupo cobra que o poder público adote medidas para proteger a vida dessa população.
Para o ativista e sociólogo, Rildo Veras, o apoio do Fundo Brasil em conjunto com outras instituições foi fundamental para a materialização deste projeto. “A gente luta pelo direito de existir. Existir do nosso jeito, sem precisar nos moldar a padrões e o trabalho em rede potencializa ações globais a partir de uma ação local”, diz.
No entanto, nos últimos anos o compromisso assumido por muitas corporações no auge dos debates sobre governança ESG e responsabilidade social deu lugar ao encolhimento de orçamentos para pautas de diversidade. Pressionadas por uma crescente onda conservadora, grandes empresas passaram a desidratar ou até mesmo encerrar programas internos de inclusão, investimentos institucionais voltados a minorias sociais.
Essa debandada escancara a fragilidade de condicionar a garantia de direitos humanos às pressões políticas internacionais. Ao recuar seus investimentos, o mercado corporativo envia uma mensagem de que a dignidade e a existência de corpos negros, indígenas e LGBTQIAPN+ são valores totalmente negociáveis, sujeitos a métricas de apelo comercial e conveniência de ocasião.
É precisamente diante desse vácuo deixado pelo “desinvestimento corporativo” que a urgência da filantropia independente se impõe. Quando as marcas recolhem suas bandeiras e congelam seus aportes, são os fundos de direitos humanos, a sociedade civil organizada e os coletivos de base que continuam na linha de frente para garantir a sobrevivência de projetos essenciais.
Afinal, a proteção à vida e a construção de uma sociedade justa não podem ser tratadas como campanhas sazonais ou modismos corporativos, pois exigem investimento contínuo, autônomo e verdadeiramente comprometido com a transformação social.
O direito de sonhar continua presente
Para a população LGBTQIA+, sonhar significa ter a garantia de envelhecer, ocupar a universidade, trabalhar dignamente, amar sem medo e caminhar pelas ruas sem o fantasma da violência.
A história do movimento nos ensina que a solidariedade e a articulação comunitária são as maiores forças contra a barbárie. Garantir o investimento contínuo nessa luta não é apenas uma pauta de uma minoria, mas um compromisso inadiável com a consolidação da própria
Que possamos sonhar, captar, financiar e caminhar lado a lado com as forças que insistem em redesenhar o Brasil como um território de todas as pessoas!




























