
Foto: Inês Campelo – Marco Zero Conteúdo / Acervo Fundo Brasil-02
Imagine a seguinte situação: uma forte chuva não cessa há dias e faz o frio aumentar, mesmo assim, ao chegar todos os dias do trabalho você toma um banho quente, escova os dentes, e pode preparar o jantar e lavar a louça com a água potável que sai da torneira. A chuva não compromete o abastecimento, porque a rede de água tratada continua funcionando normalmente, entregando água limpa e segura, mesmo em dias de temporal.
Na rua, os bueiros escoam a chuva, então o quintal da sua casa ou o térreo do seu condomínio não enche e nada corre risco de rachar ou desmoronar. Mas infelizmente essa não é a realidade de milhões de brasileiros e a gente pode te mostrar.
De acordo com o Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil, mais de 30 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, enquanto cerca de 90 milhões (43,3% da população) vivem sem coleta de esgoto. Ao cruzar esse dado com o Censo 2022 do IBGE, que revela que 69% das pessoas sem esgotamento sanitário adequado no país são pretas ou pardas, a exclusão ganha rosto e cor. O que parece coincidência tem nome e é o que chamamos de Racismo Ambiental.
O Racismo Ambiental não é aleatório
O site Amazônia Real evidenciou esta problemática com a reportagem “Censo 2022 põe em evidência racismo ambiental no Brasil”.
O texto destaca que Roraima é o estado brasileiro com maior percentual de moradores em habitações precárias. São 2,48% da população vivendo nessas condições, o equivalente a 15.431 pessoas. Desse total, 12.812 são indígenas, ou seja, 2,06% de toda a população do estado. Esse número não é uma estatística fria. É a prova de que o racismo ambiental tem um público definido.
Em outras palavras, quando muitas vezes chamamos de “tragédia natural”, “força da natureza” ou “problema crônico de infraestrutura” é, na verdade, resultado de um padrão histórico de negação de direitos direcionado a áreas periféricas e territórios tradicionais.
O antropólogo e urbanista, Paíque Santarém, durante entrevista para a TV Senado (2024) conceituou o Racismo Ambiental como “fenômeno de tratamento desigual que desprivilegia e que prejudica populações negras, indígenas e outros povos”.
Ele também aproveitou a oportunidade para exemplificar o fenômeno durante eventos climáticos extremos. “Se chove todo o ano, tem região que alaga e região que não alaga. As ações estão concentradas nos territórios nobres, já nas áreas onde estão a população negra não há esforço. É simplesmente uma escolha de agenda governamental”.
4 situações de Racismo Ambiental na prática
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Seca/Enchentes
Os eventos climáticos extremos não se manifestam apenas no excesso de chuva que causa inundações, a escassez prolongada de água é igualmente devastadora. Enquanto enxurradas e rios transbordando costumam ser as primeiras imagens que vêm à mente diante de um desastre ambiental, a seca severa também consome territórios e vidas de forma cruel e avassaladora.
Em 2023, o Fundo Brasil lançou a campanha “Nossas origens pedem socorro” para apoiar as terras indígenas do Amazonas que ficaram em estado de emergência por causa dos recordes de secas nos rios da Bacia Amazônica. De acordo com o Ministérios dos Povos Indígenas, a falta de alimento, de água potável e de locomoção pelos rios e afluentes atingiu cerca de 35 mil indígenas naquele período.
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Água que não chega ou chega contaminada
Enquanto regiões centrais mantêm o abastecimento mesmo em períodos de escassez, a negação do acesso à água limpa ou a convivência forçada com rios envenenados evidencia como a garantia do direito humano é distribuída de forma seletiva a depender da cor e do endereço de quem precisa beber.
Em 2025, o maior desastre ambiental da história do país, o rompimento da Barragem de Fundão completou 10 anos e até os dias atuais dezenas de comunidades entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo sofrem com a falta de acesso à água potável.
Ao Brasil de Fato, Marta de Freitas da Coordenação Estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) foi cirúrgica.
“O grande anseio da população em toda a bacia do Rio Doce são duas coisas que não estão acontecendo: acesso à água potável de qualidade e a retirada da lama ao longo do leito e das margens do Rio Doce. Quando chove, a lama volta. Por isso que eu falo que o crime continua acontecendo”, disse ela.
O Fundo Brasil, por meio do Edital “Promoção e Defesa de Direitos Humanos na Bacia do Rio Doce”, já destinou mais de R$1,5 milhão para 41 projetos de grupos, coletivos ou organizações da sociedade civil que atuam na área impactada pelo rompimento.
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Empreendimentos Poluentes
A escolha de onde instalar empreendimentos de alto impacto poluidor, indústrias químicas, lixões ou grandes rotas de escoamento logístico não é neutra. Esse processo segue uma lógica deliberada que direciona os rejeitos do desenvolvimento econômico para locais onde a especulação imobiliária é baixa e a capacidade de resposta jurídica da população é fragilizada pelo racismo estrutural.
Um exemplo disso é o caso da fábrica de lã de vidro que encerrou as operações em Santo Amaro, na capital paulista, após décadas de reivindicações da população local. Segundo reportagem do G1 publicada em julho de 2026, durante décadas vizinhos relataram emissão de fumaça intensa, fuligem, ruídos e forte odor vindos da chaminé da fábrica, inclusive no período noturno. A empresa encerrou as atividades no local após acordo firmado com o Ministério Público de São Paulo.
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Expulsão territorial
Quando famílias quilombolas, indígenas, ribeirinhas e de pescadores artesanais vêem suas terras ancestrais cercadas por monoculturas, hidrelétricas ou grandes projetos de infraestrutura, o que está em jogo é a destruição súbita de seus modos de vida, sustentabilidade e identidade cultural.
O avanço predatório sobre esses territórios sob o pretexto de “progresso” desconsidera o papel fundamental dessas populações na preservação dos biomas e as força ao deslocamento compulsório, como foi um caso da instalação da Hidrelétrica de Belo Monte que provocou impactos profundos no modo de vida dos habitantes do Rio Xingu, sobretudo na pesca que é principal fonte de proteína para muitas famílias da região.
O Conselho Ribeirinho do Rio Xingu, em Altamira, no Pará, nasceu para defender os direitos das famílias ribeirinhas atingidas pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte e recebe apoio financeiro e institucional do Fundo Brasil. Entre suas atuações, o conselho representa as famílias que foram retiradas à força de suas casas nas margens e ilhas do rio Xingu para dar lugar à construção da usina.
Onde está a resposta para o Racismo Ambiental?
Diante de um cenário tão complexo, é comum surgir o sentimento de impotência. No entanto, a resposta para o racismo ambiental já está sendo construída por quem vive essa realidade no dia a dia.
Não importa se é nas periferias do Rio de Janeiro ou em territórios rurais, as lideranças locais já desenvolvem tecnologias sociais avançadas e recebem o apoio do Fundo Brasil para seus projetos.
Em 2025, a fundação doou R$32 milhões à sociedade civil organizada brasileira, um aumento de 20% em relação ao volume de doações em 2024. Somente a linha Raízes – Justiça Climática para Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, já mobilizou mais de R$6 milhões, desde a sua criação, em doações diretas para projetos e respostas emergenciais voltados a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
No entanto, a conscientização só se torna mudança sistêmica quando é acompanhada pelo financiamento constante. Cada doação realizada ao Fundo Brasil fortalece a linha de frente do combate às desigualdades e garante ferramentas, assessoria jurídica e infraestrutura para quem protege os territórios na base.
Se você acredita que é possível garantir justiça climática para todas as pessoas, apoie o Fundo Brasil de Direitos Humanos e fortaleça o enfrentamento do racismo ambiental.




























