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“Movimento negro é a luta social mais bem sucedida desse país”, diz socióloga Vilma Reis

Grupos de enfrentamento ao racismo participaram de oficinas de formação e articulação promovidas pelo Fundo Brasil

23 outubro 2019

- por Mônica Nóbrega -

Depois de duas horas de conversa sobre desafios e perspectivas atuais da luta anti-racista, a socióloga e ativista Vilma Reis encaminhou o encerramento de sua oficina com uma reflexão de impacto. “O movimento negro é a luta social mais bem sucedida deste país. Fez o povo negro chegar até aqui, apesar do projeto genocida que está na fundação do Brasil.” A afirmação foi feita durante encontro que o Fundo Brasil promoveu em Salvador, e que reuniu dez grupos de seis estados. 

Foi a primeira oficina de formação e articulação no contexto do edital “Enfrentando o racismo a partir da base: mobilização para defesa de direitos”, realizada em julho. Proporcionar momentos de formação, reflexão coletiva e articulação entre organizações com projetos ativos são uma parte importante da missão do Fundo Brasil. 

A rodada mais recente de encontros entre grupos apoiados no edital de enfrentamento ao racismo teve caráter regional. Foi realizada na segunda semana de outubro, no Rio de Janeiro, com grupos do Sudeste, e em Salvador, com organizações do Norte e do Nordeste. Das conversas sobre desafios e os primeiros resultados dos projetos desenvolvidos participaram também Sue Gunawardena-Vaughn e Soheila Comninos, representantes da Fundação Open Society, parceira do Fundo Brasil no edital. 

Urbano e rural. Realizada no escritório da Open Society, a reunião do Rio de Janeiro, em outubro, teve participações da Associação Elas Existem – Mulheres Encarceradas (RJ); Grupo Conexão G de Cidadania LGBT de Moradores de Favelas (RJ); e Fórum das Juventudes da Grande BH (MG). Os grupos trocaram informações sobre estratégias de segurança de defensoras e defensores de direitos em territórios militarizados – como as favelas cariocas e as periferias dos grandes centros urbanos em geral. Também foi feito um debate sobre possibilidades e barreiras ao diálogo com o projeto político de certos setores evangélicos, que dão suporte às ações de criminalização das populações pobres e periféricas dos governos de extrema direita. 

Em Salvador se reuniram Rede Nacional de Religiões Afrobrasileiras e Saúde (Renafro); Coletivo de Mulheres Negras Maria-Maria (Comunema, PA); Coletivo Agentes Agroflorestais Quilombolas (MA); Coletivo Brincadeira de Negão (BA); Ideas – Assessoria Popular (BA); Associação dos Remanescentes do Quilombo Rio dos Macacos (BA); Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop, PE). Além do debate sobre segurança, também foi abordado o problema do racismo ambiental, que vem se agravando. São exemplos dessa situação os avanços dos interesses econômicos sobre territórios quilombolas em Alcântara (MA) e na Bahia – na região metropolitana de Salvador, a população remanescente do quilombo Rio dos Macacos tenta, atualmente, resistir aos avanços da Base Naval de Aratu sobre seu território. 

Estratégias. Salvador também recebeu, em julho, a formação mais ampla, com todos os parceiros do edital “Enfrentando o racismo a partir da base”: Renafro, Comunema, Coletivo Agentes Agroflorestais Quilombolas, Coletivo Brincadeira de Negão, Ideas, Associação dos Remanescentes do Quilombo Rio dos Macacos, Associação Elas Existem, Conexão G, Fórum das Juventudes da Grande BH e Gajop. 

Em dois dias inteiros de atividades, os coletivos apresentaram seus projetos, suas visões de mundo e estratégias para o enfrentamento ao racismo. Também participaram de oficinas com militantes históricos pelos direitos da população negra no Brasil, realizadas na sede da Sociedade Protetora dos Desvalidos, entidade que existe há 186 anos, foi a primeira organização civil negra do país e ocupa um prédio histórico no Pelourinho. 

Enfrentando o racismo

Edson Cardoso na Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador. Foto: Shai Andrade/Fundo Brasil

O jornalista Edson Cardoso, líder do Ìrohìn – Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afrobrasileira, fez uma oficina principalmente sobre a importância da memória, da documentação, para a luta do povo negro. Disse que a valorização da trajetória do povo negro é ação política, e que essa valorização se dá por meio das narrativas, dos registros. “Por que história da África e dos africanos que vieram para o Brasil? Para que eu seja! Para que o nosso povo seja”, disse. 

“As pessoas sequestradas no continente africano e trazidas à força para o Brasil vieram sem nada, sem mala, sem pertences. Diferentemente dos europeus, que vieram com mala, ainda que mala velha, com retratos de família. Ainda assim, os africanos trouxeram tudo o que construiu o Brasil. A gente não pode cometer o erro que os senhores racistas cometeram de ignorar os seres humanos com cultura e civilização, os seres humanos com a trajetória mais antiga da humanidade”, disse Edson Cardoso. 

No segundo dia, a oficina da socióloga Vilma Reis propôs a valorização do conhecimento criado pelo povo negro como estratégia para o enfrentamento ao racismo. A apresentação foi baseada em ideias construídas a partir do estudo de intelectuais como Sueli Carneiro, Chimamanda Ngozi Adichie, Patricia Hill Collins, Kimberlé Crenshaw, Grada Kilomba e Carlos Marighella. “Nós estamos derrotando o racismo neste país porque estamos criando campos de estudo que o racismo não domina”, disse. “Com Grada Kilomba, aprendemos que podemos dizer ao outro o que vamos ser, não apenas enfrentar o que o outro diz que vamos ser.”

Como pautas prioritárias e projetos de luta, Vilma Reis ofereceu: enfrentamento da guerra às drogas; movimentos de mulheres no enfrentamento às visões coloniais que mantêm imagens de controle sobre os corpos; a exigência “parem de nos matar”; direitos à terra, à água e à cidade; e enfrentamento à militarização dos territórios. 

Para terminar, lembrou que o projeto prioritário dos movimentos negros no Brasil deve ser a emancipação política. “Não somos minoria e não podemos nos comportar como minoria.”

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