Nesta segunda-feira, 25, o Fundo Brasil de Direitos Humanos anuncia as 20 organizações pré-selecionadas no edital LGBTQIA+ Defendendo Direitos 2026. As iniciativas escolhidas atuam em diferentes regiões do país com projetos voltados à defesa de direitos, fortalecimento institucional e incidência política em territórios marcados por violência, ausência de políticas públicas e precarização das condições de vida da população LGBTQIAPN+. O valor previsto para cada apoio é de até R$ 50 mil.
Os projetos pré-selecionados abordam temas diversos: enfrentamento à LGBTfobia em assentamentos rurais, redução de danos, justiça climática, monitoramento da violência política contra pessoas trans, fortalecimento jurídico, produção de dados, comunicação comunitária e formação de lideranças periféricas. Em comum, os grupos apresentam forte atuação territorial e conexão direta com demandas locais que frequentemente ficam fora das prioridades institucionais de financiamento.
Para a diretora executiva do Fundo Brasil, Ana Valéria Araújo, o resultado ajuda a dimensionar a urgência do fortalecimento das organizações LGBTQIAPN+ no país. “Esses grupos atuam onde a violência chega primeiro e a política pública costuma chegar por último. Apoiar essas iniciativas também significa reconhecer a capacidade política e comunitária que existe nesses territórios, especialmente fora dos grandes centros”, afirmou.
Chamamos de pré-selecionados os grupos indicados pelo Comitê de Seleção e direção do Fundo Brasil para receber o apoio. Após a divulgação deste resultado, a equipe responsável pelo edital realiza o contato direto para aprofundar a análise das propostas, incluindo aspectos como viabilidade, alinhamento técnico e procedimentos contratuais. É somente após esse processo que o apoio é confirmado e as atividades começam.
O edital recebeu 481 inscrições de grupos de todo o Brasil.
Veja os pré-selecionados:
| Organização | Estado | Região |
| Associação de Redução de Danos do Amazonas – ARDAM | Amazonas | Norte |
| Coletivo Diversidade Vilhena – DIVHA (RO) | Rondônia | Norte |
| Coletivo LGBTIA+ Somar de Porto Velho/RO (RO) | Rondônia | Norte |
| GRUPO DAS HOMOSSEXUAIS THILDES DO AMAPÁ – GHATA (AP) | Amapá | Norte |
| INSTITUTO BRENDA LEE (RR) | Roraima | Norte |
| Associação Baiana de Travestis, Transexuais e Transgêneros em Ação – Atração (BA) | Bahia | Nordeste |
| COLETIVO LGTB SEM TERRA DO CEARÁ (CE) | Ceará | Nordeste |
| Coletivo Clima Queer (PE) | Pernambuco | Nordeste |
| Coletivo Frida (PI) | Piauí | Nordeste |
| Grupo Afirmativo de Mulheres Independentes do RN (RN) | Rio Grande do Norte | Nordeste |
| Grupo Karatis (CE) | Ceará | Nordeste |
| Intersexo Brasil (PE) | Pernambuco | Nordeste |
| Movimento Espírito Lilás – MEL (PB) | Paraíba | Nordeste |
| Instituto Brasileiro de Inovações Pró Sociedade Saudável Centro Oeste – IBISSCO (MS) | Mato Grosso do Sul | Centro-Oeste |
| Coletivo LGBTI do MST (SP) | São Paulo | Sudeste |
| Grupo De Emancipação E Luta Livre a Orientação Sexual – Ellos (RJ) | Rio de Janeiro | Sudeste |
| Minha Criança Trans (SP) | São Paulo | Sudeste |
| VRAA Paraty (RJ) | Rio de Janeiro | Sudeste |
| ASSOCIACAO COLETIVO LGBTQIAPN (R)EXISTIR (PR) | Paraná | Sul |
| Associação Viver sem Cárcere (RS) | Rio Grande do Sul | Sul |
Um retrato do país fora das capitais
O resultado consolidou projetos com forte presença no Nordeste, além de iniciativas em territórios rurais, periferias urbanas e cidades do interior, espaços onde organizações LGBTQIAPN+ frequentemente acumulam funções de acolhimento, proteção e articulação política diante da ausência do poder público.
A diretora executiva adjunta do Fundo Brasil, Allyne Andrade, destacou que o apoio ao campo LGBTQIAPN+ segue como prioridade política da instituição. “O tamanho da demanda mostra como ainda existe pouca estrutura de financiamento para organizações que sustentam respostas fundamentais nos territórios. Isso aumenta bastante a responsabilidade do processo de seleção”.
Entre os critérios considerados pelo comitê estiveram o protagonismo trans e travesti, a atuação em territórios pouco assistidos, o fortalecimento de organizações de base e a capacidade de articulação política das propostas apresentadas. Houve também uma preocupação em garantir diversidade regional e apoiar grupos de menor porte, que recebem pouco ou nenhum recurso, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
O processo foi conduzido por um comitê formado por ativistas e especialistas com trajetória na defesa de direitos LGBTQIAPN+. Participaram da análise Daniele Duarte, assistente social, especialista em Direitos Humanos e doutoranda pela PUC-Rio, atua na proteção de defensoras e defensores de direitos humanos e integra a direção adjunta da Justiça Global; Jean Vinicius Costa,cientista social e mestrando pela UFBA, com atuação em saúde pública, raça e direitos LGBTQIAPN+, é consultor técnico no Ministério da Saúde; Mel Fernandes, psicóloga, mestre em Psicologia Social e ativista trans no Rio Grande do Norte, atua com filantropia estratégica e fortalecimento de organizações LGBTQIAPN+; e Wilson Guilherme, pesquisadora em Direitos Humanos, diretora do C-PARTES e desenvolve estudos sobre tecnologia, transfobia e políticas públicas na Amazônia.
Daniele ressaltou o alto nível das propostas e chamou atenção para as desigualdades no acesso aos recursos. “Recebemos projetos muito qualificados, especialmente do Nordeste. Mas também ficou evidente como organizações lideradas por mulheres lésbicas e bissexuais ainda encontram mais barreiras para acessar financiamento”, observou.
Jean Vinicius Costa de Oliveira destacou o peso político da seleção diante do avanço da violência contra a população LGBTQIAPN+ em diferentes territórios. “Fortalecer essas organizações é fortalecer redes que enfrentam a LGBTfobia em regiões muitas vezes completamente desassistidas”, afirmou.
Já Mel ressaltou a preocupação do comitê em “garantir protagonismo efetivo de pessoas trans, travestis e intersexo nas organizações apoiadas, com atenção especial para grupos do interior e iniciativas com pouca estrutura financeira, mas forte atuação comunitária”.
Will destacou iniciativas voltadas ao monitoramento da violência política contra crianças trans, fortalecimento de redes comunitárias, acesso à documentação civil e ampliação de estruturas locais de proteção para pessoas LGBTQIAPN+.
Necessidade de acolhimento para incidência política
Ao longo das discussões, o comitê também debateu um ponto recorrente no campo dos direitos humanos: como reconhecer o acolhimento como parte da incidência política. Em muitos territórios, especialmente fora das capitais, oferecer proteção emergencial, orientação jurídica ou apoio psicossocial é justamente o que permite sustentar organização comunitária e permanência política.
Gislene Aniceto, gerente geral do Fundo Brasil, destacou que as propostas recebidas revelam um campo LGBTQIAPN+ cada vez mais articulado politicamente. “As propostas mostram organizações combinando acolhimento, incidência política, produção de dados, comunicação e proteção comunitária de maneira muito consistente. São grupos que conhecem profundamente seus territórios e constroem respostas concretas para problemas urgentes”, afirmou.
As discussões do comitê também evidenciaram mudanças importantes no perfil das organizações inscritas. Cresceu o número de propostas voltadas à produção de dados, proteção integral, comunicação política e incidência em políticas públicas.
Nos próximos dias, o Fundo Brasil entrará em contato com as organizações pré-selecionadas para dar início ao processo de análise técnica e documental das propostas. A formalização do apoio acontecerá após validação das informações e aprovação final da equipe responsável.




























