
A escolha da cor vermelha foi proposital, utilizada como recurso para chamar a atenção do público. / Crédito: APROSPI
“Peço licença ao público / A quem vou me reportar / Falarei do racismo / De forma bem popular / Por isso usarei o cordel / Para a mensagem passar”.
É assim que começa o cordel “Democracia é voz, Mobilização é força: Juntas(os) contra o racismo”, lançado pela Associação das Prostitutas do Piauí (APROSPI). A publicação transforma uma das expressões mais tradicionais da cultura popular nordestina em instrumento de conscientização e enfrentamento ao racismo.
A iniciativa foi desenvolvida com apoio do Fundo Brasil, por meio do edital Enfrentando o Racismo a partir da Base 2025, e nasceu da necessidade de tornar o debate sobre racismo mais acessível e próximo da realidade das trabalhadoras do sexo.
Em versos e rimas, o cordel leva a discussão para além das atividades formativas realizadas pela associação, alcançando diferentes públicos por meio de uma linguagem simples e popular.
A ideia surgiu durante as rodas de conversa promovidas pela APROSPI. As discussões revelaram que muitas associadas, inclusive aquelas que participavam da organização havia anos, ainda tinham dificuldade em reconhecer situações de racismo e compreender como o preconceito estrutural atravessava suas vidas.
Desenvolver um projeto com o Fundo Brasil possibilitou ampliar ainda mais essa percepção. “Eu fui entender o que era racismo a partir das rodas de conversa. Tanto é que nas nossas reuniões, descobrimos quase unanimemente que todas já tinham sofrido esse preconceito”, relembra Celia.
Um levantamento feito pelas próprias associadas da APROSPI, aponta que as trabalhadoras do sexo negras são as que mais sofrem discriminação e, sobretudo, se encontram em maior situação de vulnerabilidade. Além do preconceito racial, Celia também destaca que por conta do trabalho, frequentemente, são vistas com estigma, o que agrava violações de direitos e dificulta o acesso a oportunidades e serviços.
No relatório do projeto, descrevem como essa realidade se manifesta no cotidiano: “além de enfrentarem o estigma da discriminação da prostituição, enfrentam diariamente o racismo, que se apresenta com a remuneração inferior, baixa clientela, locais de trabalho precários, maus tratos/tratamento discriminatório, violência institucional, social e individual”.
Falar em racismo envolve o coletivo e o individual
Quando idealizaram o livreto, desejavam construir mais que um folheto que as pessoas “pegam por educação”. Queriam fazer algo diferente, que conquistasse a atenção do público, para que lesse de verdade. A escolha pelo cordel surgiu nesse contexto, como forma de aproximar o conteúdo de uma linguagem mais acessível e popular.
Como nenhuma das integrantes tinha experiência com o formato do cordel, buscaram ajuda perto da Associação. Conversaram com um homem em situação de rua que costumava permanecer na praça próxima à sede e recitar cordéis. A partir desse encontro, ele contribuiu com ensinamentos sobre a estrutura e a forma com que deveriam construir os versos.
Ao longo da produção, também tiveram que aprender a recitar o texto, que deve ser lido de forma musicada. Celia se orgulha muito do resultado final: “o mais bacana é que tem a nossa cara, as nossas características. A gente teve total liberdade para fazer do jeito que imaginava que seria melhor”, diz. “O Fundo Brasil deu legitimidade para a gente falar e aprender o que não sabia”.
A mudança só acontece com movimento popular
Celia se demonstra muito contente ao saber que as pessoas que leram, procuraram entender mais sobre o tema. A Associação chegou a ser convidada por unidades de educação e de saúde para falar sobre o assunto. “Vieram buscar a gente para falar nas universidades. Para nós mesmas falarmos sobre o cordel, para ler nosso próprio livro. A gente foi se sentindo mais importante falando do mal que nos assola”, conta.
Com a entrega das revistas, estima-se que 1.000 pessoas receberam o cordel. Segundo levantamento da associação, outras 3.000 foram impactadas indiretamente por meio de vínculos familiares, comunitários e sociais.
Agora, a APROSPI expressa a vontade de ampliar esse público e disponibilizar uma versão online do livreto. “Nós queremos fazer um e-book. Estamos esperando outras oportunidades para fazer, porque tem um custo e precisamos de pessoas que saibam conduzir esse trabalho”, conta.
São quase 18 anos na luta por direitos

Associadas da Associação de Prostitutas do Piauí durante evento. / Foto: APROSPI
A Associação de Prostitutas do Piauí surgiu em 10/10/2008 através de uma assembleia geral, com o objetivo de reivindicar direitos, desestigmatização e inclusão das trabalhadoras sexuais no mercado de trabalho.
Realizam atividades que interseccionam gênero, raça e classe e – através de eventos, reuniões e oficinas formativas com as comunidades –, visam espalhar a conscientização sobre violências individuais, sociais e institucionais, como o racismo.
Dentre as principais ações da Associação, estão o estímulo ao debate e à construção de políticas públicas. Também trabalham em conjunto com órgãos públicos, a fim de garantir melhores condições de vida para as trabalhadoras sexuais, em especial mulheres negras e aquelas em maior situação de vulnerabilidade.
Em 2024 e 2025 foram apoiadas pelo edital ‘Enfrentando o Racismo a partir da Base’, que busca fortalecer organizações, coletivos e movimentos liderados por ativistas negros e negras. Com o apoio, além da realização do cordel antirracista, desenvolveram oficinas abordando os direitos da população negra e saúde mental com a participação de lideranças comunitárias, trabalhadoras sexuais, jovens, mulheres pretas e periféricas.




























