
Foto: Beto Figueiroa
O som do carro do ovo, tão comum nas periferias brasileiras, ganhou um novo significado em comunidades de Pernambuco. Em vez de anunciar apenas a venda de ovos, o veículo passou a circular com mensagens de conscientização sobre violência contra mulheres, divulgação de canais de denúncia e distribuição de materiais educativos.
A iniciativa, chamada “Carro do Ovo Pela Vida das Mulheres”, é realizada pelo GAJOP e pelo Fórum Popular de Segurança Pública de Pernambuco, com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos.
A ação surgiu a partir de uma inquietação compartilhada pelas organizações: embora existam campanhas nas redes sociais e informações disponíveis na internet, muitas mulheres seguem sem acesso efetivo aos canais de proteção e acolhimento.
“Não basta a informação estar disponível. A gente queria ter certeza de que ela chegou às mulheres”, explica Edna Jatobá, coordenadora-executiva do GAJOP.
Comunicação popular para enfrentar o feminicídio
A ideia nasceu da observação do crescimento da violência contra mulheres em Pernambuco e da necessidade de pensar estratégias mais próximas da realidade dos territórios periféricos.
Segundo o estudo Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Pernambuco registrou 88 feminicídios em 2025. Um aumento de 14% em relação ao ano anterior. Isso significa que, no estado, uma mulher foi assassinada a cada quatro dias.

Foto: Beto Figueiroa
Foi nesse contexto que o Fórum Popular de Segurança Pública decidiu apostar em uma tecnologia social já consolidada no cotidiano das comunidades. “O carro do ovo é um símbolo da economia popular, presente no cotidiano dos bairros periféricos. A gente percebeu que ele entra na casa das pessoas, chama atenção e faz parte da rotina”, afirma Edna.
A locução é aquela tradicional, inspirada nos anúncios já populares entre quem conhece. O conhecido bordão dos vendedores ganhou uma nova versão: “Conscientize alimentando e alimente conscientizando”.
Informação que circula junto com o cotidiano
Nas ações, uma advogada fica à disposição para prestar orientação jurídica imediata. Em Peixinhos, o retorno foi instantâneo: mulheres buscaram atendimento para entender como proteger sobrinhas e vizinhas, rompendo o isolamento que muitas vezes protege o agressor.
Além da mensagem sonora, a ação distribui pequenas bandejas de ovos acompanhadas de materiais educativos produzidos especialmente para a campanha. Entre eles estão panos de prato com frases de acolhimento e o telefone 180, receitas de bolo com orientações sobre violência doméstica e santinhos voltados ao diálogo com mulheres evangélicas.
“Os panos de prato têm aquela estética de casa de vó, algo afetivo e cotidiano. A ideia era que essas mensagens permanecessem visíveis dentro das casas”, conta Edna.
As primeiras ações foram feitas nos bairros de Peixinhos e Caranguejo Tabaiares, na Região Metropolitana do Recife, territórios onde o Fórum Popular de Segurança Pública já atua junto a coletivos comunitários.
Em algumas áreas, o carro sequer conseguia passar pelas vielas estreitas. A própria comunidade encontrou soluções para manter a ação acontecendo. “Em determinado momento apareceu um carro de mão, depois uma caixa de som portátil, e quando vimos já tinha gente da comunidade conduzindo tudo junto com a gente”, relembra.

Foto: Beto Figueiroa
A ação já passou por comunidades como Peixinhos e Caranguejo Tabaiares. Nesta última, a criatividade da própria comunidade garantiu o alcance da mensagem: onde o carro não passava devido às vias estreitas, os ovos seguiram em um carro de mão e a locução foi amplificada por uma caixa de som Bluetooth levada pelos moradores.
Impacto imediato nos territórios
Os efeitos da ação começaram a aparecer logo nas primeiras atividades. Em Peixinhos, mulheres procuraram orientação jurídica oferecida pela equipe após receberem os materiais informativos.
“Teve mulher perguntando como funcionava o 180, querendo saber como ajudar familiares que sofriam violência. A informação começou a gerar movimento”, afirma Edna.
Outro aspecto que chamou atenção da equipe foi a maneira como as mulheres passaram a aproveitar a presença dos profissionais para levar a informação para dentro das próprias casas. “Muitas chamavam a gente para entrar e explicar tudo olhando para os homens da família. Era como dizer: agora existe uma rede de apoio e todo mundo está sabendo”, relata.
Essa capilaridade permite que a equipe do projeto entre em lares onde o agressor está presente. Edna relata que, em diversas ocasiões, mulheres convidaram a equipe para entrar e explicar a ação justamente na frente de seus companheiros, usando a presença do projeto como uma forma de proteção e aviso. “Elas traziam a gente para dentro e pediam para explicar, olhando para a cara do homem. Isso tem um efeito que não conseguimos calcular, mas é fundamental”, diz
A repercussão também fez com que outras comunidades passassem a procurar o GAJOP pelas redes sociais pedindo que o carro do ovo circulasse em seus territórios.

Foto: Beto Figueiroa
Apoio do Fundo Brasil fortalece ação nos territórios
O apoio do Fundo Brasil ajudou a garantir a produção dos materiais, a logística das atividades e o fortalecimento da articulação comunitária. Parte dos recursos veio do apoio institucional ao GAJOP e das iniciativas apoiadas junto ao Fórum Popular de Segurança Pública do Nordeste.
Hoje, cada ação distribui cerca de 600 ovos e alcança aproximadamente 100 residências por território. Além disso, organizações parceiras passaram a replicar a iniciativa em outras regiões do estado.
“O mais bonito é ver as pessoas tomando conta da ação. Os coletivos se mobilizam, as comunidades participam e as organizações começam a construir juntas novas formas de enfrentar a violência”, destaca Edna.
Ideias populares para combater a violência
O carro do ovo é apenas uma das estratégias pensadas pelo Fórum Popular de Segurança Pública dentro de uma agenda chamada “ideias populares para combater a violência”.
As próximas ações incluem iniciativas em campos de futebol, barbearias, feiras populares e até uma mobilização com a tradicional “carreta furacão” para conscientizar crianças e adolescentes sobre violência sexual e canais de denúncia.
“A gente quer pensar estratégias que dialoguem com a vida real das pessoas, com aquilo que faz parte do cotidiano das comunidades”, resume Edna.
O projeto é um esforço coletivo que envolve o Fundo Brasil, Open Society, TDH e uma rede de organizações locais como a Rede de Mulheres Negras Evangélicas, o Movimento Negro Evangélico, o Coletivo Fuzuê, o Centro das Mulheres do Cabo e o Instituto Fogo Cruzado.




























