
Foto: Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira
Em Várzea – município da Paraíba – os moradores sempre conviveram com o bioma Caatinga, ainda que fosse marcado por períodos de seca. Mas as alterações climáticas agravaram os desafios do semiárido. As chuvas passaram a ser ainda mais irregulares e a falta de água reduziu a biodiversidade local. As abelhas diminuíram e a produção de feijão e milho já não garante o sustento das famílias, que passaram a comprar na cidade o que antes produziam.
Por conta desses impactos, a Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira começou a buscar alternativas para se adaptar.
A Associação é apoiada pelo Fundo Brasil através do edital Fortalecendo Soluções de Povos Indígenas, Comunidades Tradicionais e Trabalhadores (as) rumo à Justiça Climática e à Transição Justa.
O edital é uma colaboração entre duas ações especiais do Fundo Brasil: o Raízes – Justiça Climática para povos indígenas e comunidades tradicionais e o Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno. A chamada pública apoia organizações que auxiliam no enfrentamento aos impactos da crise climática e constroem formas de produção e geração de renda mais sustentáveis.

A solução encontrada pela Associação promete combinar inovação e tradição. A ideia é fortalecer a bioeconomia, produzindo e gerando renda a partir da natureza, valorizando os conhecimentos tradicionais. Na comunidade, realizam esse trabalho por meio do uso de plantas nativas da Caatinga e sementes crioulas.
Impactos no território exigiram adaptabilidade
Segundo Zuila Santos, presidente da Associação, as secas prolongadas provocadas pelas mudanças climáticas já vinham dificultando o cultivo e reduzindo a biodiversidade local. Com a instalação de usinas solares próximas à comunidade, a situação piorou: “o impacto é muito grande. Quando a água da chuva cai, não penetra no subsolo e é escoada diretamente pro rio. Fora as temperaturas. As plantas da nossa região ressecam muito mais rápido por causa do vento seco e quente que vem das placas solares”.
Além desses danos, quando chove, a água leva resíduos para o rio. Foi por conta disso que resolveram implementar ações de reflorestamento dos leitos de rio para tentar conter o barro.
Construção de um viveiro comunitário

Foto: Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira
Para recuperar áreas degradadas e proteger os leitos dos rios, 30 famílias passaram a cultivar mudas de espécies nativas da Caatinga, como umbuzeiro, juazeiro e baraúna.
Ao todo, foram distribuídas 200 mudas, acompanhadas de orientações sobre plantio, irrigação e manejo.
Meses depois da implementação, já é possível perceber efeitos positivos: há menor erosão e maior retenção de umidade no solo.

Fotos: Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira
Ida à Teixeira gerou intercâmbio de conhecimentos

Foto: Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira
O apoio do Fundo Brasil possibilitou a ida à Teixeira, município vizinho de onde fica a comunidade. Em meados de abril de 2026, alugaram um ônibus para visitar uma propriedade que produz hortaliças em hidroponia. Lá, os participantes conheceram o sistema de estufa.
Se sentiram tão motivados que logo implementaram um sistema semelhante para testes, em menor escala, evitando grandes perdas caso houvesse manejo incorreto ou pragas. “Foi muito importante conhecer o projeto, porque uma coisa é a gente fazer, mas não saber como serão os resultados futuros. Ali, a gente viu que dá resultado. Que dá muito mais resultado do que o plantio no solo”, diz Zuila ao lembrar da viagem.
Implementação da agricultura regenerativa
O sistema de hidroponia é novidade no território e foi escolhido após análises demonstrarem que o solo não era propício para hortas tradicionais. “Nos quintais, no solo, o plantio não dava certo. Através de uma oficina a gente viu que a hidroponia usa pouca água. E a economia é bem maior”, explica. Assim, perceberam que inovar na forma de cultivo poderia ser mais viável, econômica e ambientalmente.

“Nossa vegetação é mais de Jurema, porque o solo é fraco. E a gente culpava a Jurema. Mas ela nasce para poder fortalecer o solo. Através dos cursos, começamos a aprender que precisamos ter uma área de preservação, para que o nosso subsolo também retenha água”, explica Zuila / Fotos: Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira

Foto: Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira
Das cerca de 250 pessoas que vivem na comunidade, 178 já participaram, de forma direta ou indireta, das ações do projeto.
Mulheres são maioria na frente de boa parte das atividades e ajudam a manter os saberes quilombolas vivos enquanto os jovens aprendem com os mais velhos como cuidar do território, mantendo a tradição.
Caminhando para a justiça climática
Mesmo em fase inicial, a produção de hortaliças já impacta na segurança alimentar da comunidade. A alimentação das famílias está mais diversificada e não há mais dependência da compra na feira da cidade.
Os primeiros resultados já mostraram o potencial da iniciativa, mas Zuila acredita que o impacto será ainda maior nas próximas remessas. “A gente tá super empolgado. E quando eu digo ‘a gente’ é o grupo, a comunidade. O manejo é rápido e com menos de um mês já podemos colher o produto”, afirma.
A expectativa agora é ampliar a produção, investir em uma estufa hidropônica maior, compartilhar as técnicas com outras comunidades quilombolas e comercializar os excedentes em feiras locais.

Foto: Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira
A Associação
A Associação Comunitária Quilombola de Pitombeira é composta majoritariamente por mulheres negras quilombolas, que exercem papel de liderança na comunidade e atuam na articulação política, mobilização social e organização das ações. Também há o acolhimento à juventude – valorizando aspectos intergeracionais – e à pluralidade das expressões de gênero e sexualidade.
Por meio de formações, práticas sustentáveis e valorização dos saberes tradicionais, pretendem promover autonomia, consciência coletiva e justiça climática e, principalmente, fortalecer a identidade quilombola e a luta pelos direitos territoriais e ambientais da comunidade.




























