
Diante dos avanços e contradições da democracia brasileira, imaginar um futuro mais justo exige discutir caminhos possíveis para fortalecer a democracia diante do avanço de forças autoritárias. A plenária de encerramento da Conferência de Direitos Humanos do Fundo Brasil trouxe o tema A utopia dos direitos humanos: lançando as bases para um futuro melhor. Para debater o tema, reuniu Lucas Petroni, cientista, filósofo e professor da Escola de Economia de São Paulo da Faculdade Getúlio Vargas (FGV); Thuane Nascimento, diretora executiva do PerifaConnection e cofundadora do Observatório das Baixadas; e Juliana Gonçalves, jornalista, ativista, pesquisadora e cofundadora da Marcha das Mulheres Negras. A conversa foi mediada pela jornalista Semayat Oliveira, co-apresentadora do podcast Mano a Mano.
Os avanços e os limites da democracia
“O que nós podemos fazer como sociedade, aqui e agora, com os recursos e projetos que nós temos em andamento, para desarticular ou impedir que forças autoritárias ou projetos autoritários se organizem e desestruturem a democracia brasileira?” Essa foi a pergunta que norteou a fala inicial de Lucas Petroni na plenária.
O filósofo explicou que essa questão orienta uma pesquisa multidisciplinar, que reúne cerca de 15 pesquisadores de diferentes áreas da vida política brasileira. A partir do trabalho, cada grupo propôs uma lista de reformas possíveis e factíveis para o Brasil em 2026. Lucas resumiu os resultados em quatro teses, a primeira delas dedicada a um balanço da experiência democrática brasileira nos últimos 40 anos. A análise compara a realidade brasileira de 1988 com o Brasil atual e aponta avanços em diferentes áreas. “A despeito de todos os problemas que a gente sabe que existem, hoje temos uma sociedade muito mais digna, humana e muito mais decente do que em 88”, afirmou.

Lucas Petroni | Foto: Rebeca Figueiredo
O professor da FGV chamou atenção para o aumento da renda familiar per capita e a queda da pobreza no país. Apesar dos avanços, ele apontou três problemas que persistem na democracia brasileira: a concentração de renda, a violência social e a transformação das forças autoritárias.
Para Lucas, a concentração de renda é “uma característica de democracias pós-coloniais”. Já a violência social não apresentou melhora e pode ter se agravado, abrangendo tanto agentes e grupos sociais quanto a violência interpessoal e a violência do Estado.
Quanto à atuação das forças autoritárias, o filósofo afirma que esses agentes deixaram de usar um modelo de “vigilantismo” para passar a aplicar essas forças por um padrão “insurrecionista”, voltado à desestabilização da ordem vigente e à tomada do poder. Nesse contexto, Lucas diferenciou extremismo de radicalismo: enquanto o primeiro busca destruir bases democráticas, o segundo pode representar uma forma legítima de organização política diante de situações de injustiça. “Nesse sentido, o radicalismo pode ser muito bom, e é até um dever diante da injustiça.”
Na definição dele, grupos extremistas são antidemocráticos que querem acabar com a igualdade ou diferença entre cidadãos. “É uma característica do extremismo tentar acabar com a negociação de diferenças”, o que ameaça a vida política no Brasil de diferentes formas, já que “um ambiente saturado de extremismo faz com que as pessoas tenham medo de se expressar publicamente”.
Thuane Nascimento complementou a discussão ao falar sobre uma espécie de “salvaguarda”, atribuída à juventude diante do avanço do autoritarismo. Segundo ela, o momento exige defender as conquistas democráticas, mas sem transformar essa defesa na preservação indiscriminada de tudo o que existe. “Quando a gente fala da defesa da democracia, a gente tem instituições democráticas que são extremamente importantes, mas a gente também tem uma democracia vivida no chão do território”, afirmou. Para ela, é preciso encontrar um equilíbrio entre o que deve ser protegido e o que precisa ser transformado.
Juliana Gonçalves abriu sua fala lamentando a recente perda da ativista Zélia Amador de Deus, que faleceu neste mês se setembro, aos 76 anos. A pesquisadora ressaltou a importância da militante na pavimentação dos caminhos trilhados pelo movimento negro e destacou que “Zélia passou a vida defendendo o bem-viver”.
Ao abordar os desafios políticos do presente, Juliana enfatizou a importância de olhar para o amanhã e afirmou acreditar que “a maior ameaça ao capitalismo é o próprio capitalismo”. Segundo ela, a extrema direita busca, em grupos socialmente vulnerabilizados, culpados para períodos de dificuldade. “É por causa de quem que a vida está difícil? É culpa dos negros, das mulheres, dos imigrantes, dos pobres?”, questionou.
A pesquisadora também chamou atenção para a desesperança presente na população e para suas consequências políticas. Para Juliana, a sustentação da democracia não se limita às eleições. Embora reconheça a importância do processo eleitoral, ela ressaltou que “as pessoas são capazes de pegar um instrumento democrático para votar em propostas antidemocráticas”. Nesse contexto, a ativista destacou a capacidade da extrema direita de transformar medo e frustração em identidade política. Para ela, apontar os problemas, por si só, não é suficiente para enfrentar esses projetos: “É uma disputa que não passa pelos fatos, é uma disputa de pertencimento, de identidade e de medo.”
Movimento negro, bem-viver e construção coletiva

Thuane Nascimento | Foto: Rebeca Figueiredo
Thuane destacou a necessidade de transformação de instituições que foram originalmente criadas para atender à elite e que, hoje, se tornam cada vez mais acessíveis à população periférica. Ela ressalta a importância do movimento negro para essa mudança de pensamento: “Toda a movimentação de pessoas negras na sociedade passa principalmente pelo ensino superior, pelo acesso à educação e pela construção pública de ações afirmativas, que foram apostas do movimento negro de olhar para uma instituição que até agora não servia à realidade brasileira e dizer: ‘A gente vai mudar essa história’.”
O assunto se estende aos manicômios, que, até alguns anos atrás, eram vistos como uma realidade impossível de ser transformada. “Até que alguém olhou e falou: ‘Isso aí tem que acabar, isso é tortura’ ”, complementa. Hoje, a luta antimanicomial ganhou mais visibilidade, contribuindo para o avanço de políticas de cuidado em liberdade.
Nesse sentido, Juliana destacou a importância de produzir vínculo, confiança e pertencimento. Para ela, uma política baseada no afeto deve ser uma das portas para a construção de um novo tempo. Ela acredita também que um dos papéis dos direitos humanos para os próximos 20 anos seja, justamente, recuperar a formação de base, construir comunidades e retomar o diálogo, pautas historicamente reivindicadas pelos movimentos negros. “A confiança é um valor muito importante para produzir tempo e esperança”, afirmou.
Para ela, houve uma grande elaboração política nos últimos anos, na qual as mulheres negras afirmam um novo bem-viver. “Elas não estão dizendo apenas que querem viver, mas como elas querem viver.” Segundo Juliana, com essa reivindicação, elas também disputam a própria ideia de Estado, possibilitando um debate sobre qual Estado se deseja e qual deve ser sua organização política, social e econômica.
Juliana ressaltou também que a discussão da democracia deve incluir um debate acerca da regulamentação democrática, rigorosa, transparente e responsável das big techs através do financiamento das mídias negras, comunitárias e periféricas, entendendo que “o jornalismo local e a comunicação produzida aqui não são acessórios, são essenciais para combater a desinformação e esse mundo em declínio.”
É possível reconectar o sonho do coletivo?

Semayat Oliveira | Foto: Rebeca Figueiredo
No final da mesa, Semayat Oliveira questionou os painelistas acerca do combate à desesperança citada anteriormente. “Como a gente pode, talvez, reconectar uma utopia, o sonho de ser coletivo?”
Lucas acredita que a aversão de algumas pessoas à utopia pode acontecer por alguns modelos que visavam projetos ruins. Porém, ele diz que muitos desses projetos, apesar de se dizerem utópicos, nunca tiveram uma relação íntima com a ideia de democracia e diferença. “A utopia de hoje é o senso comum de amanhã”, complementa. Para ele, o problema é a sobra de utopias individualistas e a “falta da ideia de transformar uma sociedade democraticamente”. Reforça ainda a necessidade de um olhar amplo para a consolidação de utopias, e enxerga a coletividade como única forma de conseguir coalizões estáveis que lutam por um interesse comum.
Ele relembraque a própria ideia do Brasil viver uma democracia era utópica até o final do século XX, e compara a taxa de desigualdade brasileira à de países do Oriente Médio, que vivem em realidades patriarcais e escravocratas. “A gente tem que olhar a democracia brasileira não como algo que é difícil e que não funciona, mas quase como um milagre sociológico”, completa.
Thuane seguiu o debate com o questionamento sobre o que é necessário para transformar uma utopia em realidade, e cita o recente debate sobre o fim da escala 6×1. Para ela, mais do que discutir esses temas pontualmente, é necessário uma agenda política consistente que, a longo prazo, transforme a utopia em senso comum. Ainda que figuras públicas ajudem a dar visibilidade para uma causa, a palestrante reforça que são os movimentos sociais que efetivamente lutam para que ela se concretize.
Nesse sentido, Thuane retoma o debate sobre a insegurança, com a ideia que as pessoas contra o fim da escala 6×1 não são necessariamente contra o trabalhador folgar dois dias: elas temem que o Brasil possa ser afetado negativamente com a redução da carga horária de trabalho. Para ela, a forma de combater essa linha de pensamento é reforçar o sentimento de acolhimento e segurança para a população.
Ela finaliza reforçando que a esquerda precisa lutar pelo próprio imaginário, e não apenas seguir causas que foram impostas. “A gente pode perder, mas a gente vai trabalhar e se juntar por algo que a gente quer.”

Juliana Gonçalves | Foto: Rebeca Figueiredo
O plenário se encaminha para o fim com a fala de Juliana sobre o movimento que transformou o bem viver em uma prática política cotidiana. Para ela, a luta pelo fim da escala 6×1 é um ótimo exemplo dessa perspectiva, que olha coletivamente para a sociedade e decide lutar pela causa dos trabalhadores que merecem um tempo de descanso digno.
A ativista complementa que é preciso construir o sentimento do coletivo na sociedade e que essa é a única forma de conquistar direitos. Ela afirma que as pessoas são movidas pelas próprias paixões, e que abordar esses interesses pessoais é o caminho para a coletividade. “Por isso alguns discursos progressistas de esquerda ficam muito chatos, porque ficam falando sobre o que a gente não quer, e não sobre o que a gente quer”, complementa.
Semayat complementa dizendo que é preciso aceitar o contraditório, e travar diálogos sem a pretensão de estar certo o tempo todo. Por último, a mediadora propõe aos palestrantes uma rápida dinâmica para responder quais são suas utopias.
Semayat inicia, contando que a utopia que a motiva é a liberdade para que pessoas pretas possam viver. Em seguida, Juliana conta que a sua utopia é ser livre, sem medo, e o sonho de um parlamento mais representativo. Lucas conta que sua motivação é imaginar que qualquer pessoa possa considerar que vale a pena viver em uma democracia. Thuane finaliza de forma descontraída, contando que sua utopia é a reforma agrária, demarcação de terras indígenas e reforma urbana nas periferias.
*Giovanna Martini e Victória Guedes, da Jornalismo Júnior da Escola de Comunicação e Artes da USP, sob supervisão da jornalista Mônica C. Ribeiro.




























