Nesta sexta-feira (19), o Fundo Brasil de Direitos Humanos anuncia as 20 organizações pré-selecionadas no Edital Geral 2026 — Fortalecendo Direitos e Gestando um Mundo Novo. A iniciativa apoia grupos e coletivos que atuam na linha de frente em diferentes territórios do país, com foco no fortalecimento institucional de organizações que sustentam ações de incidência, proteção de comunidades e promoção de direitos.
Ao todo, 20 grupos avançam para a etapa final de apoio, com doações de até R$ 50 mil cada, totalizando R$1 milhão em recursos diretos. As selecionadas atuam em agendas urgentes e variadas, englobando direitos das mulheres, enfrentamento ao racismo, proteção de territórios indígenas e quilombolas, justiça climática, defesa da população LGBTQIAPN+, direito à saúde, assessoria jurídica popular, liberdade religiosa e proteção de defensores de direitos humanos.
Para a diretora executiva do Fundo Brasil, Ana Valéria Araújo, o edital geral opera como a espinha dorsal da fundação. “Ele funciona como uma linha transversal sobre todos os outros editais específicos que operamos, pois nos permite abordar diferentes temáticas ao mesmo tempo e deixa evidente que os direitos humanos no Brasil são violados de diferentes formas”, explica. “Como fazemos isso todo ano, ele se tornou uma ferramenta viva de mapeamento atualizadíssimo do campo. É o trabalho do comitê que nos dá estofo para afirmar que o Fundo Brasil apoia quem mais precisa, chegando aos grupos que estão na linha de frente e que mais se beneficiam desse recurso”, explica.
Os dados de inscrição revelaram um forte componente de renovação de atores sociais no país. Cerca de 70% das 1.639 organizações se inscreveram no portal do Fundo Brasil pela primeira vez, logo após o lançamento da chamada.
“A gente tem chegado a lugares que não tinha acessado ainda. A maioria delas entrou no portal, construiu seu perfil pela primeira vez a partir de 7 de dezembro”, celebrou Alexandre Pachêco, coordenador do edital. O reflexo prático disso está no resultado: 75% dos grupos recomendados nunca haviam recebido apoio financeiro anterior da fundação.
Confira a lista dos pré-selecionados:
| Organização | Estado | Região |
| Associação de Mulheres da Mata Amazônica do Sudeste Paraense | Pará | Norte |
| Coletivo Veredas | Pará | Norte |
| Instituto de Sustentabilidade e Eficiência Energética Puxirum | Amazonas | Norte |
| Instituto Quilombola Mbaraká Òkútá | Pará | Norte |
| Associação Comunitária do Gois | Bahia | Nordeste |
| Coletivo Por Elas Empoderadas | Maranhão | Nordeste |
| Ilê Orisá Mimo Asé Isaju Aganju | Bahia | Nordeste |
| Observatório Pataxó do Território | Bahia | Nordeste |
| Rede de Mulheres Negras do Ceará | Ceará | Nordeste |
| Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul | Mato Grosso do Sul | Centro-Oeste |
| Associação do Território Quilombo Mesquita | Goiás | Centro-Oeste |
| Associação Raros Visíveis | Mato Grosso | Centro-Oeste |
| Agência Diadorim | São Paulo | Sudeste |
| Associação Civil Nós Seguras | Rio de Janeiro | Sudeste |
| Instituto Casa das Pretas | Rio de Janeiro | Sudeste |
| Instituto Comunitário Casa Mirants | Minas Gerais | Sudeste |
| Associação de Economia Solidária, Cultura e Educação da Cascata | Rio Grande do Sul | Sul |
| Instituto Democracia Popular | Paraná | Sul |
| Ijobá Asé Osun Olomi Wurá | Rio Grande do Sul | Sul |
| Núcleo de Estudos da Prostituição | Rio Grande do Sul | Sul |
Sustentabilidade e Território na seleção do Comitê
O processo de avaliação foi conduzido por um comitê formado por lideranças, pesquisadoras e ativistas com trajetórias reconhecidas em diferentes campos dos direitos humanos. Integraram o grupo Mércia Alves (SOS Corpo), Masra de Abreu, Diego Nascimento, Antônio Neto (Justiça Global), Sara Pereira (FASE Amazônia), Marciely Ayap Tupari (COIAB), Pablo Nunes (CESeC) e Felipe Brito, com experiências que atravessam feminismo, justiça racial, direitos territoriais, proteção de defensoras e defensores de direitos humanos, direitos LGBTQIAPN+ e fortalecimento da sociedade civil.
A engenharia metodológica priorizou a sobrevivência do ecossistema ativista. “Fortalecimento institucional não é só projeto com começo, meio e fim. É garantir recursos humanos, infraestrutura física, equipamentos e a mera existência do grupo, abrindo espaço para processos de transformação institucional, como planos de captação que possibilitem autonomia real”, destaca Alexandre Pachêco.
A triagem final de 164 organizações manteve o equilíbrio histórico entre Sudeste (40), Nordeste (39), Norte (35) e Centro-Oeste (29). A surpresa veio do Sul, que avançou com 21 propostas levadas ao comitê. Pachêco justifica o olhar atento da curadoria: “O Fundo sempre teve um cuidado muito grande em que os apoios para Norte, Nordeste e Centro-Oeste fossem priorizados, mas também olha para essas regiões reconhecendo que a luta nesses territórios está muito difícil e que precisa também de apoio.”
A homenagem à escritora e feminista Rose Marie Muraro amarrou a prioridade do resultado. No bloco focado em gênero, o comitê focou em grupos vulnerabilizados. “São coletivos com temas sensíveis e invisibilizados que enfrentam as barreiras de uma herança colonial, escravocrata e misógina”, aponta Mércia Alves.
Para Masra de Abreu, o aporte cumpre o papel de sustentar a resistência local: “Fortalecer quem defende direitos humanos em áreas marcadas pelo conservadorismo é estratégico para o campo hoje.”
As pressões territoriais e a violência institucional contra os defensores ditaram o tom das discussões sobre raça e terra. Antônio Neto resume o peso do apoio: “Esse recurso atua diretamente contra a criminalização na ponta, dando segurança a quem enfrenta as causas estruturais dos conflitos mais complexos do país.”
Sobre as pautas socioambientais em tempos de escassez global, Sara Pereira é categórica: “O edital geral se torna a única alternativa para esses grupos diante da retração da cooperação internacional.”
Diego Nascimento destacou o valor estratégico de fortalecer novas bases regionais. “A metodologia do edital nos dá uma perspectiva real do movimento nacionalmente, permitindo apoiar de forma transversal redes periféricas que usam o espaço compartilhado para fortalecer múltiplos coletivos locais ao mesmo tempo”, afirmou Diego.
As escolhas também acolheram lacunas históricas de financiamento, como o letramento em saúde e identidades dissidentes. A ativista indígena Marciely Ayap Tupari ressalta que as iniciativas fogem do assistencialismo: “Buscamos dar ferramentas e informação para que as comunidades saibam como exigir o básico.”
Conectando religiosidade tradicional e gênero, Felipe Brito defende que terreiros e quilombos precisam ser lidos como instâncias políticas: “São redes de salvaguarda civil e núcleos de humanização cruciais no combate à transfobia e à intolerância.”
Pablo Nunes fecha o diagnóstico integrando moradia e preservação ambiental: “A potência foi entender que defender a permanência das populações tradicionais em suas terras é construir respostas práticas para a justiça climática e contra os despejos.”
Próximos Passos
A equipe do edital entra agora em contato direto com os 20 grupos para alinhar os procedimentos contratuais, analisar a viabilidade técnica e adequar orçamentos. A contratação será efetivada somente após a verificação da possibilidade de contratação e a aprovação da documentação pela equipe responsável.




























