O papel dos trabalhadores na construção de uma transição climática justa foi o tema central do painel “O Mecanismo de Ação de Belém e as Frentes Estratégicas para a Liderança dos Trabalhadores na Ação Climática”, realizado em 23 de junho, durante a Semana de Ação Climática de Londres (LCAW).
O encontro, realizado na New Economics Foundation, foi promovido por uma parceria entre o Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno (iniciativa do Fundo Brasil de Direitos Humanos), a Iniciativa Horizontes de Trabalho e o Global Fund for a New Economy (GFNE). O debate teve como ponto de partida o Mecanismo de Ação de Belém (BAM), compromisso firmado durante a COP30, em novembro do ano passado.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Amanda Camargo, coordenadora de programas do Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno. Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos.
O mecanismo foi criado para apoiar uma transição para economias sustentáveis que seja justa e inclusiva, com maior participação de trabalhadores e suas organizações nas decisões climáticas. Ele é visto por organizações sindicais como uma conquista importante para inserir direitos trabalhistas e participação ativa de trabalhadores no centro da transição justa para uma economia sustentável.
Na abertura, Amanda Camargo, coordenadora de programas do Labora, reconheceu o BAM como uma vitória, mas defendeu que ele seja visto como o início de uma discussão mais ampla. “O Mecanismo de Ação de Belém é um ponto-chave dessa conversa, mas não é o único. É uma porta de entrada para o nosso diálogo.”
Ela também reiterou que a efetividade de qualquer mecanismo climático depende da “participação, liderança e contribuição dos trabalhadores em todos os níveis”. Ela lembrou que, nos últimos três anos, o Labora apoiou cerca de 190 organizações trabalhistas no Brasil, em mais de 300 projetos.
Amanda ainda destacou como a crise climática aprofunda desigualdades já existentes: “Temos visto, na prática, como a mudança climática é transversal aos trabalhadores urbanos, rurais, às comunidades das águas e das florestas, interrompendo a vida cotidiana em condições que já eram desiguais”, alertou.
Pioneirismo do movimento sindical na justiça climática
Amalia Hammarlund, coordenadora de projetos da Confederação Internacional dos Sindicatos (ITUC), destacou que o movimento sindical reivindica há décadas a inclusão da transição justa nas negociações climáticas. Para ela, o debate é urgente diante de discursos que opõem empregos e meio ambiente.

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“Temos visto uma dicotomia sendo apresentada aos trabalhadores: empregos versus meio ambiente. Essa é uma falsa dicotomia”, alertou. “Os trabalhadores não estão rejeitando a ação climática. Eles estão rejeitando políticas ruins.” Amalia afirmou que a decisão tomada na COP30 foi um passo importante, mas ressaltou que ainda faltam planos concretos de implementação. “O trabalho de estabelecer esse mecanismo ainda está à nossa frente.”
Transição justa para além da energia
Boitumelo Molete, coordenadora de políticas de desenvolvimento social do Congresso Sul-Africano de Sindicatos (COSATU), trouxe o caso da África do Sul, país marcado pela dependência do carvão, desigualdade e uma tradição institucionalizada de diálogo social. Para ela, a transição justa não pode ser reduzida à transição energética. “Falamos de uma transição justa, e não apenas de uma transição energética justa. Não é setorial. Todos devem estar envolvidos”, pontuou.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
Para isso, reiterou a importância do trabalho em campo: “Não estamos fazendo pesquisa de escritório. Estamos indo aos locais de trabalho, conversando com trabalhadores, fazendo grupos focais para entender o que essa transição significa para eles”, observou.
Trabalhadores invisibilizados na transição
A presença de Kabir Arora, secretário-geral da Aliança Internacional de Catadores (IAWP) ampliou o debate para trabalhadores muitas vezes invisibilizados nas discussões de transição justa: os catadores de materiais recicláveis, categoria formada por entre 20 e 40 milhões de trabalhadores no mundo.
“Vivemos em um mundo de recursos limitados, e ninguém sabe disso melhor do que os catadores”, destacou. Para Kabir, esses trabalhadores criaram, por necessidade e sobrevivência, modelos de recuperação e reutilização que são apropriados hoje pelo discurso da economia circular.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
Kabir defendeu que, se empresas e cadeias econômicas operam globalmente, a organização dos trabalhadores também deve se articular em escala internacional: “Se não há fronteiras para o capital, por que haveria fronteiras para o trabalho? Portanto, estamos fazendo essas perguntas e construindo essas redes internacionais para garantir que as instituições multilaterais internacionais sejam capazes de criar leis flexíveis (soft laws) que possamos ratificar em nossos respectivos países, e que possamos fortalecê-las e propor sistemas melhores.”
A importância da organização dos trabalhadores
Por sua vez, Sonia Mistry, diretora de Clima e Trabalho do Solidarity Center – uma organização global fundada pelo Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), maior central sindical dos Estados Unidos –, organizou sua fala em três pilares: governança, capacidade e conexão. De acordo com a diretora, trabalhadores ainda são frequentemente excluídos dos espaços de decisão climática, mesmo quando seu trabalho sustenta iniciativas apresentadas como soluções ambientais.
“Não há transição justa sem trabalhadores e suas organizações”, pontuou. Sonia também defendeu que o movimento climático reconheça melhor o potencial político do trabalho organizado, o que definiu como uma força inexplorada: “O trabalho organizado é talvez o maior poder coletivo ainda não aproveitado pelo movimento climático”, completou.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
Os participantes concordaram que o Mecanismo de Ação de Belém abriu uma janela política importante, mas sua efetividade dependerá de quem terá voz e poder em sua implementação. Nesse processo, financiadores e parceiros filantrópicos têm papel importante no fortalecimento de organizações trabalhistas capazes de levar a perspectiva dos trabalhadores para políticas climáticas justas.
A Semana de Ação Climática de Londres (LCAW) 2026 ocorreu entre 20 e 28 de junho e reuniu cerca de 75 mil participantes em mais de 1.000 eventos pela capital inglesa.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos




























