Nos dias 25 e 26 de março, o Labora — Fundo de Apoio ao Trabalho Digno, em parceria com a Funders Organized for Rights in the Global Economy (FORGE), promoveu um encontro em São Paulo que reuniu lideranças de 37 organizações. O evento articulou representantes de movimentos sociais, sindicatos e trabalhadores dos setores agrícola, de cuidados, da pesca, de plataformas digitais e do comércio informal, com o objetivo de compartilhar experiências e traçar estratégias para ações transnacionais.
Embora essas mobilizações tenham ganhado fôlego nos últimos anos — especialmente nos segmentos automotivo e de aplicativos, impulsionadas pela organização em rede —, tais iniciativas ainda são pouco exploradas em outras frentes de defesa dos direitos trabalhistas. O encontro, que integrou uma pesquisa de seis meses envolvendo entrevistas, grupos focais e revisão de literatura, contou com o apoio da Fundação Laudes.
Amanda Camargo, coordenadora de projetos do Labora, destacou a escassez de recursos voltados ao fortalecimento da luta pelo trabalho digno, tanto em âmbito nacional quanto global. “Estamos aqui para aprender com as organizações, mapear alternativas e propostas. Contamos também com o apoio de organizações financiadoras interessadas em fortalecer essa causa e colaborar conosco nesta jornada”, afirmou.
O encerramento do evento contou com uma roda de diálogo direto entre representantes da filantropia e as organizações sociais, partindo das questões levantadas durante a jornada. Representantes do Labora, FORGE, Fundação Laudes, Fundação Avina e Fundação Tide Setubal debateram com os participantes temas como critérios e prazos de apoio financeiro, monitoramento, prestação de contas, engajamento internacional e o suporte a pequenos fundos. Ficou evidente o compromisso das entidades financiadoras com uma escuta ativa, reconhecendo que a transformação socioeconômica – que passa pelo mundo do trabalho – só é possível a partir de um apoio que respeite a autonomia de todos os envolvidos.
Para Maeve Galvin, diretora de programas da FORGE no Fundo para Democracia no Trabalho, a iniciativa é fundamental para identificar novas frentes de atuação. “Estamos estudando novas formas de poder dos trabalhadores e pesquisando oportunidades para campanhas transnacionais, visando criar programas onde grupos possam se unir além das fronteiras na luta por direitos”, enfatizou.
O encontro foi realizado no Auditório da Casa Carlito Maia, localizado no bairro dos Campos Elíseos (SP). A alimentação foi fornecida pelo Armazém do Campo de São Paulo, com produtos agroecológicos provenientes da Reforma Agrária Popular.
Estratégias setoriais e desafios dos movimentos de base
Durante o encontro, os participantes mapearam barreiras setoriais no contexto internacional, identificaram estratégias de articulação e formularam propostas para orientar a atuação filantrópica no ecossistema do trabalho digno. Para aprofundar o debate, os participantes foram divididos em subgrupos temáticos, nos quais dialogaram e construíram coletivamente mapas setoriais que refletem os desafios específicos de cada categoria.
- Tecnologia e resistência digital: a categoria de trabalhadores de plataformas digitais e aplicativos priorizou em sua agenda a resistência algorítmica em nível internacional. O grupo destacou a urgência de fortalecer a união da classe para enfrentar a pulverização característica desse modelo de trabalho. O debate contou com a participação de representantes do SIMTRAPLI/RS, ATAMB (Natal/RN), CUT Nacional, AMAE/DF, Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativo (ANEA) e a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA).
- Formalização e o direito à cidade: já os catadores de materiais recicláveis e vendedores ambulantes pautaram a necessidade de formalização e o reconhecimento do direito à cidade. O grupo defendeu a incidência junto à Organização Internacional do Trabalho (OIT) para que suas atividades sejam reconhecidas como pilares essenciais da economia global. Estiveram presentes lideranças do Movimento Nacional dos Catadores (MNCR), da Unicab, da Streetnet e do Movimento Unido dos Camelôs (MUCA – RJ).
- Justiça de gênero e economia do cuidado: o segmento de trabalhadores do cuidado concentrou esforços na luta pela superação da invisibilidade e pela justiça de gênero. A tese central foi o reconhecimento do cuidado como trabalho efetivo e estruturante da sociedade. Contribuíram para essa construção representantes da WIEGO, da Federação Internacional das Trabalhadoras Domésticas (FITD), Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Associação de Trabalhadores em Domicílio da Economia Solidária (ATEMDO), Federação Nacional de Doulas do Brasil (Fenadoulas) e Rede Jubileu Sul.
- Território e proteção ambiental: a categoria voltada às águas e florestas reafirmou a defesa do “território-vida”, focando no combate ao racismo ambiental e na preservação da economia de povos originários e comunidades tradicionais. O coletivo reuniu vozes da APIAM (Amazonas), APOINME (Nordeste, MG e ES), do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) e da Articulação Nacional das Pescadoras (ANP).
- Resistência no campo contra corporações: por fim, o setor da agricultura apresentou-se como uma frente de resistência ao avanço das grandes corporações, articulando estratégias de incidência política para proteger seus territórios. O grupo foi composto por representantes da Conectas Direitos Humanos, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Articulação Agro é Fogo, Business and Human Rights Center (BHRC), CONTAR, Assembleia Internacional dos Povos (AIP), Via Campesina e a própria FORGE.
Campanhas Internacionais, clima e trabalho digno: achados preliminares serão apresentados em Londres

Durante a Semana de Ação Climática de Londres 2026, o Labora e a FORGE promoverão o painel “Reimaginando a Transição Justa: Trabalhadores, Clima e o Papel da Filantropia“, focado nas realidades do Brasil e do Sul Global. O evento apresentará os resultados preliminares da pesquisa resultante da Jornada de Aprendizado que, além de identificar as principais lacunas e barreiras para a organização transnacional de trabalhadores, também investigou os impactos de fenômenos extremos — como estresse térmico, secas e inundações — sobre a subsistência de diversas categorias profissionais.
O debate contará com a participação de representantes da Aliança Internacional de Catadores de Materiais Recicláveis, da Via Campesina e da Confederação Nacional dos Assalariados e Assalariadas Rurais (CONTAR), unindo vozes que enfrentam diretamente a crise climática no campo e nos centros urbanos.
Além de diagnosticar os danos causados por grandes projetos de transição energética em territórios vulneráveis, a discussão pretende pautar o setor da filantropia sobre a necessidade de superar abordagens fragmentadas. O objetivo central é fomentar estratégias coordenadas de solidariedade internacional que garantam suporte financeiro e político a respostas lideradas pelos próprios trabalhadores, assegurando que a transição para uma economia verde seja, de fato, socialmente justa e globalmente integrada.
Detalhes do evento:
- Data – 24 de junho, a partir das 10h (horário de Londres);
- Local – auditório do Sindicato Vozes Unidas do Mundo, localizado no endereço: 144 Cambridge Heath Rd, Bethnal Green, London E1 5QJ (Reino Unido).
OBS.: O evento é presencial e sujeito a lotação, realize sua inscrição aqui.





























