Em um país marcado por desigualdades e violações históricas de direitos, a atuação de organizações da sociedade civil é fundamental para proteger vidas, fortalecer comunidades e construir caminhos mais justos. Para que esse trabalho aconteça e, principalmente, se sustente ao longo do tempo, é necessário fortalecer as organizações.
Com o apoio flexível, os recursos podem ser utilizados de acordo com as necessidades reais de cada organização, respeitando seus contextos, prioridades e estratégias. Apoiar com recursos flexíveis é uma forma de reconhecer que organizações que são historicamente subfinanciadas possuem conhecimento, experiência e legitimidade para decidir como utilizar os recursos da melhor forma possível.
Durante a pandemia de Covid-19, muitas organizações financiadoras reavaliaram algumas práticas e tornaram-se mais flexíveis com relação às necessidades das comunidades, compreendendo que as organizações locais estavam mais próximas dos desafios enfrentados pela população e eram capazes de definir as prioridades de atuação.
Segundo o “2023 Grantmaker Survey Report” dos 396 financiadores que responderam a pesquisa, 87% relataram que suas organizações tomaram medidas para adotar e/ou aprofundar seu compromisso com a filantropia baseada na confiança desde 2020. O Fundo Brasil foi uma dessas organizações e, desde então, a prática demonstrou resultados bastante positivos.
“O Fundo Brasil tem entendido, desde a pandemia, que é importante a gente fortalecer a permanência e existência das organizações, entendendo também que no contexto de pandemia e de pós-pandemia, a gente tem diversas emergências. Os grupos nos apontam essa necessidade. É nesse momento que a gente precisa de uma sociedade civil forte. Pela sustentabilidade dessas organizações, a gente faz editais com recurso de natureza flexível”, disse Allyne Andrade – diretora executiva adjunta do Fundo Brasil – durante o lançamento do Edital Enfrentando o Racismo a partir da Base 2022.
Na prática, recursos flexíveis ajudam a cobrir aquilo que costuma ficar de fora dos projetos, mas que sustenta todo o trabalho: manter equipes, investir em formação, melhorar processos de gestão, fortalecer a comunicação, responder a situações emergenciais ou aproveitar oportunidades que surgem ao longo do caminho. São despesas que raramente aparecem nos resultados mais visíveis, mas que fazem diferença na capacidade de uma organização planejar, permanecer ativa e ampliar seu impacto.
Quando o financiamento cobre apenas atividades previamente definidas, as organizações acabam dedicando tempo e energia para se adaptar às exigências dos projetos. Já o apoio flexível parte de outra lógica: reconhece que quem está no território conhece melhor seus desafios e sabe onde os recursos podem gerar mais efeito.
Investimento fortalece pertencimento e autoestima

Foto: Revista Etapa e Coletivo Raízes do Baobá Negras e Negros de Jaú-SP
O Coletivo Raízes do Baobá Negras e Negros de Jaú-SP plantou uma muda da árvore que simboliza a ancestralidade negra na Praça do Museu Municipal, no centro de Jaú. O plantio foi um dos resultados do projeto desenvolvido para consolidar a presença negra na cidade e, assim, enfrentar o racismo estrutural. Com o apoio o coletivo promove ações de educação antirracista, oficinas culturais e articulação institucional para consolidar a presença negra na cidade.
Além disso, puderam realizar atividades essenciais, como a compra de materiais e a contratação de uma equipe. Kátia Souza, liderança do Coletivo, afirmou que “antes, tudo era no improviso. Pela primeira vez conseguimos valorizar o trabalho de quem sempre esteve conosco de forma voluntária. Somos muito gratas ao Fundo Brasil por tudo o que vem sendo possível realizar”.
Em relatório, Kátia disse, ainda, que o recurso “possibilitou realizar ações importantes e dar autonomia para todas, principalmente, na liberdade e no nosso ir e vir. Viabilizou inúmeros pagamentos: combustível, pedágios, passes, aplicativos de transporte, alimentação, aquisição de equipamentos, pagamento de serviços etc”.
Apesar de muitas dessas despesas serem classificadas como custos operacionais, elas foram fundamentais para a realização das atividades do Coletivo. Com liberdade para direcionar os recursos de acordo com as necessidades do dia a dia, a organização realizou etapas essenciais de seu trabalho em meio às ações do projeto.
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Formalização amplia autonomia e fortalece a gestão

Público durante cerimônia em homenagem à mãe Hilda de Jitolu. Foto: Maiara Cerqueira/Instituto Mulher Negra Mãe Hilda de Jitolu
O apoio flexível também permite que as organizações planejem com mais consistência e liberdade. Enquanto projetos que seguem regras rígidas e exigências administrativas em excesso, podem gerar sobrecarga e desviar o foco, projetos que possuem um apoio mais flexível conseguem se adaptar com maior facilidade e gerar mudanças reais.
Em 2023, o Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolu lançou um selo comemorativo de 100 anos da matriarca Hilda Jitolu com o apoio do Fundo Brasil. Para Valéria Lima – diretora-executiva do Instituto – os efeitos do apoio foram além da realização do projeto: “a gente não tinha nem CNPJ quando o projeto foi aprovado. Vocês foram determinantes para que a gente conseguisse dar os primeiros passos”.
Além de dar mais estrutura às atividades desenvolvidas pelo Instituto, a formalização ampliou a capacidade de atuar de forma independente, reduzindo a necessidade de recorrer a terceiros para viabilizar processos administrativos e financeiros.
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Apoio flexível abre caminhos para maior inovação

Foto: Acervo Rede Cuíra – Jovens Protagonistas dos Manguezais Amazônicos
Distribuindo os recursos de maneira mais flexível, os grupos conseguem pensar estrategicamente, definir prioridades e construir ações mais estruturantes, abrindo espaço para inovação.
Foi esse o caso da Rede Cuíra – Jovens Protagonistas dos Manguezais Amazônicos. Bruna Martins, coordenadora de projetos da organização, conta que “a forma como os recursos são implementados no território faz toda a diferença”.
O projeto “Voltando às minhas raízes” foi desenvolvido pela organização a fim de formar 40 jovens lideranças e desenvolver ações para 650 extrativistas. A ideia consistia planejar coletivamente, fortalecer a governança da rede e aprofundar conhecimentos sobre justiça climática.
A flexibilidade do apoio é um fator essencial, que permite ampliar a atuação: “a cada encontro, a cada atividade, nasce uma nova juventude engajada”, disse. A flexibilidade do apoio também abriu espaço para maior adaptabilidade às necessidades do território e, consequentemente, à inovação. Segundo Bruna, a confiança do Fundo Brasil no trabalho possibilitou que as ações fossem ainda maiores do que as planejadas inicialmente.
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Os três casos mostram que, ao se fortalecer, a organização amplia seu impacto. Ao ampliar o acesso a esse tipo de financiamento, também se contribui para reduzir desigualdades no campo da filantropia, tornando a distribuição de recursos mais justa, mais eficiente e mais alinhada com as realidades locais.




























