O trabalho de organizações que defendem condições justas de trabalho diante da crise climática foi o foco do segundo debate promovido pelo Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno, iniciativa do Fundo Brasil de Direitos Humanos, em parceria com a FORGE – Funders Organized for Rights in the Global Economy, durante a Semana de Ação Climática de Londres.
Realizado em 24 de junho, na sede do sindicato Vozes Unidas do Mundo, em Londres, o encontro “Reimaginando a Transição Justa: Trabalhadores, Clima e o papel da Filantropia” promoveu a troca de experiências entre lideranças de catadores, trabalhadores rurais e comunidades atingidas por barragens e mineração.
Introduzindo o debate, Maeve Galvin, diretora de programas da FORGE, e Amanda Camargo, coordenadora de projetos do Labora, apresentaram os resultados de uma jornada de aprendizado realizada nos últimos meses com organizações trabalhistas, sindicatos internacionais e parceiros no Brasil. O processo buscou entender como a crise climática tem afetado diferentes grupos de trabalhadores, da agricultura e das águas às plataformas digitais, dos cuidadores aos vendedores ambulantes e catadores.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
Esse mapeamento mostrou que os impactos da crise climática vão além do calor e dos eventos extremos, afetando também a renda, a informalidade e a organização coletiva dos trabalhadores. Mas identificou alternativas construídas pelos próprios trabalhadores. “Mesmo sob circunstâncias muito penosas e pouco financiadas, as organizações de trabalhadores e trabalhadoras estão criativamente reinterpretando esse contexto”, afirmou Amanda, citando estratégias como negociações coletivas, defesa de territórios, agroecologia e pontos de apoio para trabalhadores informais.
Na mediação, Maritza Silva-Farrell, coordenadora do programa Futuro dos Trabalhadores na Fundação Ford, destacou o papel da filantropia no apoio a organizações que já constroem respostas à crise climática nos territórios e no mundo do trabalho.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
Em sua visão, qualquer política climática precisa partir de quem vive esses impactos no cotidiano: “Os trabalhadores e as comunidades impactadas já estavam se organizando e se adaptando às condições existentes antes de começarmos a falar de adaptação climática”, lembrou, reiterando que “as pessoas que são afetadas são as que têm as soluções”.
Catadores defendem reconhecimento na economia circular
Kabir Arora, secretário-geral da Aliança Internacional dos Catadores (IAWP), trouxe ao debate a experiência dos catadores de materiais recicláveis, que somam entre 20 e 40 milhões de trabalhadores no mundo. Em sua vivência, muitos catadores chegam à atividade após serem deslocados por eventos climáticos extremos.
Kabir também destacou que muitos catadores trabalham em lixões e áreas altamente expostas aos efeitos da crise climática. No calor, esses espaços se tornam ainda mais perigosos, com maior risco de incêndios e agravamento das condições de trabalho.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
Ainda assim, segundo ele, os catadores não são apenas afetados pelos eventos climáticos extremos: também oferecem soluções. “Um catador reduz, em média, a pegada de carbono de seis pessoas e meia”, afirmou. Para Kabir, esse é justamente o ponto: de um lado, há vulnerabilidade; de outro, há uma contribuição concreta para a gestão de resíduos e para o enfrentamento da crise climática.
Entre as iniciativas citadas, estão cooperativas, serviços descentralizados de gestão de resíduos, manejo de resíduos orgânicos e participação em políticas de responsabilidade estendida do produtor.
A informalidade no campo
A realidade dos trabalhadores rurais assalariados no Brasil foi apresentada por Laíssa Pollyana, coordenadora de projetos da Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (CONTAR). A entidade representa cerca de 4 milhões de trabalhadores rurais brasileiros.
Entre os dados mais alarmantes apresentados por Laíssa estavam o alto índice de informalidade no trabalho rural, que chega a 60%. Essa informalidade dificulta o reconhecimento desses trabalhadores como sujeitos de direitos e impede que muitos tenham acesso a garantias básicas de proteção trabalhista, saúde e segurança.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
“Eles trabalham, em sua maioria, a céu aberto. Estão expostos a muito calor, frio, poeira, vento e são diretamente impactados pelos agrotóxicos”, denunciou, citando os cortadores de cana, que muitas vezes trabalham sob temperaturas de 35°C a 40°C, cortando até 14 toneladas do alimento por dia.
Contudo, Laíssa destacou o avanço que tiveram ao conseguirem que o governo implementasse a NR 31, norma de saúde e segurança no trabalho rural que prevê medidas como água potável e fresca, protetor solar, banheiros nas frentes de trabalho e áreas cobertas de descanso.
Energia, mineração e justiça territorial
Na sequência, Francisco Kelvim, representante da Via Campesina e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), trouxe ao debate as lutas de comunidades afetadas por barragens, mineração e projetos de energia. Ele criticou o que chamou de “transição hegemônica”, marcada por privatização, avanço sobre territórios e concentração de renda sob o discurso da descarbonização.
“Não existe transição justa e popular sem democracia. Não existe transição justa sem trabalho digno. Não existe transição justa sem a garantia dos nossos territórios”, destacou. Como alternativa, Francisco destacou o projeto Vereda Solar, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais: uma usina solar fotovoltaica flutuante construída com participação comunitária, que beneficia 1.200 famílias com descontos na conta de luz.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos
Pressão no financiamento de organizações trabalhistas
Uma pergunta da plateia sobre financiamento climático trouxe um exemplo do impacto político no setor. Laíssa Pollyana relatou que a CONTAR perdeu financiamento do governo dos Estados Unidos logo no início da gestão Trump. Ela ainda destacou que o apoio da FORGE é o primeiro voltado especificamente à pauta climática dos trabalhadores rurais.
Já Kabir Arora lembrou que a escassez de recursos é histórica entre os catadores, o que reforça a necessidade de que os próprios projetos sirvam também como espaço de formação política.
Ao final, os participantes defenderam mais articulação entre trabalhadores, comunidades e uma participação mais ativa da filantropia. Para Maureen Santos, da FASE Brasil, o encontro mostrou que os espaços de luta “não são só resistência, são também alternativas”.
Já Tugce Oakley, ligada à comunicação da Cúpula dos Povos de 2026, chamou atenção para a situação de trabalhadores informais e migrantes na Turquia, especialmente sírios e afegãos: “Temos muitos trabalhadores informais, especialmente depois da guerra na Síria e da chegada de afegãos após o Talibã. Eles trabalham em condições muito duras e seus direitos não são respeitados”, relatou, defendendo maior diálogo entre organizações trabalhistas e movimentos sociais de diferentes países.
Na oitava edição da Semana de Ação Climática de Londres, que reuniu mais de 75 mil pessoas em centenas de atividades pela cidade, o painel levou à agenda climática internacional a visão de trabalhadores e comunidades que já enfrentam os impactos da crise climática e constroem alternativas para defender seus direitos, territórios e trabalho digno.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Crédito: Giovanni Bello/ Acervo Fundo Brasil de Direitos Humanos.




























