O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, ultrapassando 850 mil pessoas nessa condição. Paralelamente ao crescimento do encarceramento em massa, o país registra milhares de mortes decorrentes de intervenção policial. Estima-se que, somente no ano de 2025, foram registrados 6.519 casos de letalidade policial no Brasil. O número é 4,5% maior que o do ano anterior.
Em meio à toda essa violência estatal, grupos de mães e familiares se mobilizam diariamente para garantir maior segurança pública, manutenção dos direitos dentro do sistema carcerário e aos parentes de pessoas encarceradas.
No Fundo Brasil, essas pessoas podem ser apoiadas pelo programa de justiça criminal, que atua nas seguintes frentes: alternativas à prisão, garantia de direitos de pessoas egressas do sistema prisional para evitar reincidência, produção de dados e medição da eficiência de instâncias do sistema de justiça criminal.
Ainda que exista um programa específico para essa causa, o apoio não se restringe a ele. Organizações que trabalham com temáticas ligadas à segurança pública também podem receber recursos através de outras linhas de apoio, como o Enfrentando o Racismo a partir da Base.
A seguir, conheça três organizações que lutam por justiça e receberam apoio do Fundo Brasil:
Coletivo Mães pela Paz

Foto: Mães pela Paz
O Coletivo Mães pela Paz, de Goiás, surgiu da união de quatro mães que perderam seus filhos na chacina Solar Bougainville, em 2018. Assim como tantas outras, essa foi mais uma chacina a vitimar jovens negros e periféricos. De acordo com um relatório da Rede de Observatórios da Segurança, quase 90% dos mortos por policiais em 2023 tinham esse perfil.
Ao longo de sua jornada, o Coletivo realizou ações voltadas ao apoio de familiares que passaram por situações parecidas, incluindo o lançamento do livro “por que não me sinto segura dentro da minha própria casa?” que reúne relatos de familiares que perderam entes queridos durante a chacina.
Através do projeto apoiado pelo Edital Enfrentando o Racismo a partir da Base (2024), puderam desenvolver ainda mais o cuidado com a saúde mental, por meio de sessões de terapia em conjunto com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e, ao mesmo tempo, ampliar o trabalho de combate ao racismo, através de rodas de conversa e palestras sobre o assunto. O apoio possibilitou maior incidência política, resultando em ações como o acompanhamento de processos no Ministério Público.
Maria Ramos, membro da organização, percebeu grande evolução do Coletivo, desde o começo do apoio. Em um dos relatórios, encaminhado ao Fundo Brasil, comentou: “hoje é visível o fortalecimento institucional. As famílias estão mais corajosas, abrem processo contra o Estado, vão a caminhadas, falam nas escolas que racismo é crime e que devemos combatê-lo. O grupo se transformou, está mais unido e confiante na busca por justiça racial”.
Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado
Formada em 2016, a organização atua no acolhimento, denúncia e luta por justiça contra a violência estatal e o racismo no Brasil. Patricia Oliveira, integrante da Rede, é parente de um sobrevivente da chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, e essa foi uma das motivações para que se mobilizasse pela causa.
Ano a ano, a organização promove o “Encontro da Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado”. Trata-se de um evento que reúne familiares e ativistas de movimentos ligados aos direitos humanos que lutam contra o genocídio de pessoas negras, pobres e faveladas.
O Encontro é promovido em maio, mês que representa a luta de familiares – principalmente as mães – que buscam por justiça e a responsabilização do Estado pela política de terrorismo. Em 2024, o Fundo Brasil viabilizou a chegada de algumas pessoas ao evento, em Pernambuco. Naquele ano, pouco antes de se reunirem no segundo dia, uma das mães, que havia perdido o filho há seis meses, tirou a própria vida.
O acontecimento trouxe “muita tristeza, mas também uma sensação de superação da luta”. Para Patrícia, é importante falar sobre familiares que desenvolvem depressão depois de perder um parente. A reunião anual acaba sendo um espaço para verbalizar essas dores: “o encontro é muito enriquecedor e acolhedor, é a oportunidade que temos de nos fortalecer”, reflete.
Em 2026, a 9ª edição está prevista para os dias 14 e 17 de maio e acontecerá em Curitiba, Paraná.
AMPARAR – Associação de Amigos/as e familiares de presos/as (SP)

Foto: AMPARAR
A AMPARAR nasceu oficialmente em 2004 e há mais de 20 anos atua na denúncia de violências, abusos e desrespeito aos direitos das pessoas presas e seus familiares.
A iniciativa começou a se articular informalmente em meados de 1998, quando o filho de Maria Railda e os de outras mães foram para a Fundação Casa (que, naquela época, se chamava Febem).
Com o tempo, perceberam que além das condições desumanas, que envolviam maus tratos, o sistema socioeducativo não tinha um espaço para acolher os familiares e decidiram se movimentar.
Com o pensamento “como eu gostaria de ser vista?” em mente, criaram uma metodologia de atendimento que gira em torno de acolhimento, escuta de qualidade, respeito à vida e a história de cada um e à disponibilização de informações.
Desde então, realizam rodas de conversa com pessoas que têm algum ente querido no cárcere e/ou que passaram pelo sistema carcerário, a fim de promover a troca de experiências, discutir desafios comuns, orientar sobre direitos e produzir materiais sobre prisão provisória e encarceramento em massa.

Fazem parte desse movimento mães, familiares, amigos de pessoas privadas de liberdade e sobreviventes do sistema prisional / Fotos: AMPARAR
Atualmente, a AMPARAR é apoiada na temática de Justiça Criminal por carta-convite, linha de apoio especial destinada ao fortalecimento institucional de organizações que têm ampla articulação em rede.
Um dos marcos de incidência política da organização foi o envio de um ofício à Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) sobre como a falta de padronização na documentação exigida nas visitas gera obstáculos burocráticos e financeiros aos familiares. O documento também foi apresentado a parlamentares estaduais e federais e ao Relator Especial da ONU.
O apoio contribui para a continuidade das atividades desenvolvidas pela organização e para a ampliação da atuação junto às famílias em seus territórios. “Partimos do princípio de que a vida é o mais importante de tudo. E o Fundo Brasil acredita no nosso trabalho e nos dá vida. Isso fortalece o acompanhamento com as famílias”, afirma Maria Railda.





























