Representantes de 15 organizações de catadoras e catadores de materiais recicláveis, de sete estados brasileiros e de atuação nacional, reuniram-se em Belo Horizonte, nos dias 19 e 20 de outubro, para construir uma carta de reivindicações à COP31, conferência do clima das Nações Unidas, que será realizada em novembro, na Turquia. A Carta pretende levar à agenda climática internacional as demandas de uma categoria essencial à transição para uma economia mais verde, mas que enfrenta os impactos de eventos extremos sobre suas condições de trabalho, saúde e renda.
O encontro fez parte do programa de intercâmbio do Labora – Fundo de Apoio ao Trabalho Digno. O Labora é a linha do Fundo Brasil de Direitos Humanos que fortalece organizações de trabalhadores na defesa de direitos e proteção social.
Desde sua criação, o Labora já destinou aproximadamente R$1 milhão a 14 organizações de catadores de materiais recicláveis de diferentes regiões do país, apoiando o fortalecimento institucional e sua participação na gestão de resíduos sólidos.
A discussão climática tem consequências diretas para quem depende da coleta e da comercialização de recicláveis para sobreviver. Segundo estudo da WIEGO – Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing, catadores estão entre os grupos da economia informal mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Chuvas intensas, alagamentos e temperaturas elevadas podem comprometer o deslocamento pelas cidades, a segurança dos galpões, a qualidade dos materiais recolhidos e, consequentemente, a renda das famílias.
Em Belo Horizonte, esses impactos já são uma realidade documentada. O Boletim Clima & Catadores nº 6, publicado pela WIEGO em abril de 2026, relata os prejuízos causados pelas chuvas torrenciais de 6 e 7 de março à cooperativa Coopesol Leste. Foram registrados 111,2 milímetros de chuva em poucas horas, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), provocando infiltrações, alagamentos e riscos envolvendo equipamentos elétricos. A cooperativa precisou interromper temporariamente as atividades, enquanto materiais como papel e papelão perderam qualidade e valor comercial, afetando a produtividade e a renda dos trabalhadores.
“A crise climática também é uma questão de trabalho e de direitos. Quem atua diariamente na recuperação de materiais recicláveis presta um serviço ambiental importante, mas enfrenta condições de vulnerabilidade que precisam entrar nas políticas de adaptação. Não é possível discutir uma transição justa sem ouvir essas trabalhadoras e esses trabalhadores”, afirma Amanda Camargo, coordenadora do Labora.

Créditos: Zoe Di Cadore | Acervo do Fundo Brasil.

Créditos: Zoe Di Cadore | Acervo do Fundo Brasil.

Créditos: Zoe Di Cadore | Acervo do Fundo Brasil.
Promovido pelo Labora em parceria com Fundación Avina, WIEGO e WORK, o intercâmbio combinou três encontros virtuais com dois dias de atividades presenciais. A programação incluiu debates sobre proteção social, trabalho digno e adaptação climática, além de visitas a cooperativas da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
O papel dos catadores na gestão de resíduos contrasta com as condições enfrentadas por muitas organizações. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o Brasil gerou cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2023, dos quais apenas 8,3% foram encaminhados à reciclagem. Desse volume, 67% tiveram origem na coleta informal e na atuação de catadores, evidenciando a importância desses trabalhadores para a recuperação de materiais.
O Atlas Brasileiro da Reciclagem identificou 2.018 associações e cooperativas no país, das quais 82% estão formalizadas. Apesar da contribuição ambiental e econômica, muitas enfrentam falta de equipamentos, infraestrutura adequada, recursos para gestão e reconhecimento pelos serviços ambientais prestados. São dificuldades que também limitam a capacidade de adaptação aos eventos climáticos extremos.

Boas-vindas do intercâmbio na Casa dos Direitos Humanos, localizado no centro de Belo Horizonte. Crédito: Zoe Di Cadore | Acervo do Fundo Brasil.
As boas-vindas do intercâmbio aconteceu na Casa dos Direitos Humanos, localizado no centro de Belo Horizonte, seguido de um debate com o Grupo de Trabalho de Mudanças Climáticas do Fórum Municipal Lixo e Cidadania. O GT de Mudanças Climáticas é composto por representantes dos catadores, do governo local e de organizações da sociedade civil. Esse espaço tem sido importante para promover avanços na política pública de gestão de resíduos, com protagonismo dos catadores.
A programação seguiu com as visitas à Coopesol Leste, à ACAMARES em Mário Campos, e ao galpão da Cataunidos (Cooperativa de Reciclagem dos Catadores da Rede de Economia Solidária), uma rede e cooperativa de catadores de materiais recicláveis com sede em Belo Horizonte. Para Alzenira Rodrigues, catadora no estado do Amazonas e representante da Associação de Catadores de Recicláveis (ACR) de Manaus, o intercâmbio foi um momento importante para conhecer outras realidades e poder seguir reivindicando garantias de trabalho digno para a categoria. “Eu nunca tive a experiência de conhecer as bases dos companheiros, eu sempre tive essa curiosidade, então ver as experiências dos galpões, dos caminhões, de coisas que a gente ainda não tem , é gratificante por saber que podemos chegar lá um dia”, afirmou Alzenira.
Participaram das formações, debates e construção da Carta Climática:
- Associação de Catadores Filhos(as) de Guadalupe (ASCAFIGUAMA) — Amazonas
- Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Bom Jesus Sul — Ceará
- Associação dos Catadores de Resíduos Sólidos Reciclando Hoje Por Um Futuro Melhor — Governador Valadares, Minas Gerais
- Cooperativa de Reciclagem dos Catadores da Rede de Economia Solidária (Cataunidos) — Minas Gerais
- Cooperativa de Catadores de Material Reciclável do Município de Lagarto — Sergipe
- Cooperativa de Catadores de Material Reciclável do Município de Simão Dias — Sergipe
- Cooperativa de Catadores de Material Reciclável do Município de Umbaúba — Sergipe
- Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis Recicla Ibiassucê — Bahia
- Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR)
- Recicla Ourilândia — Pará
- Associação de Moradores do Alto da Boa Vista Pacajus – Ceará
- Associação de Reciclagem de São João do Jaguaribe – Ceará
- Associação de Catadores de Materiais Recicláveis – Manaus, Amazonas
- Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Iranduba – Nova Esperança – Iranduba, Amazonas.
- Cooperativa de Reciclagem de Olinda (Coocencipe) – Olinda, Pernambuco
Confira a Carta Climática na íntegra:
Carta Climática das Catadoras e dos Catadores de Materiais Recicláveis do Brasil
Por uma transição climática justa, com trabalho digno, reconhecimento e participação dos catadores
As mudanças climáticas representam um dos principais desafios da humanidade e exige respostas urgentes. Catadoras e catadores de materiais recicláveis estão na linha de frente de um trabalho essencial para a sociedade e para o enfrentamento desta crise. Diariamente, recolhemos, separamos e encaminhamos materiais para a reciclagem, contribuindo para reduzir o descarte inadequado de resíduos, evitar o desperdício de recursos naturais, diminuir a pressão sobre os aterros e fortalecer a economia circular. Este trabalho também contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa e para a construção de cidades mais resilientes.
Apesar dessa contribuição, catadores e catadoras seguem enfrentando condições precárias de trabalho, baixa remuneração, falta de infraestrutura e insuficiente reconhecimento por parte do poder público e da sociedade. Muitas vezes, somos invisibilizados nas políticas de gestão de resíduos e, ainda mais, nas políticas de enfrentamento às mudanças climáticas. Além disso, as desigualdades sociais, econômicas e territoriais fazem com que catadoras e catadores estejam particularmente expostos aos impactos desta emergência climática que, por sinal, não afeta todas as pessoas da mesma maneira.
Essa realidade está documentada por pesquisas. Em estudo realizado pela WIEGO (Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing) entre 2022 e 2023, com 93 catadoras e catadores de diferentes regiões do Brasil, 91% relataram ter vivenciado pelo menos um evento relacionado às mudanças climáticas no ano anterior à pesquisa. Desse total, 85% mencionaram calor anormal ou ondas de calor e 39% relataram exposição a enchentes repentinas. Além disso, 98% consideraram as mudanças climáticas uma questão importante para sua vida e seu trabalho, enquanto 30% afirmaram não ter recebido apoio do governo, da sociedade civil ou do setor privado para enfrentar esses eventos.
Mais recentemente, o monitoramento realizado pela WIEGO em 16 cooperativas de seis cidades brasileiras documentou os impactos de chuvas intensas e ondas de calor sobre a infraestrutura, a produção, a renda e a saúde dos trabalhadores. As perdas econômicas incluíram redução de 6% a 14% nos preços de venda de materiais e, em um dos casos, queda de até 50% na renda. Nenhuma das cooperativas monitoradas possuía plano de contingência ou treinamento para situações de emergência climática.
Essas experiências demonstram que a adaptação climática precisa considerar as condições concretas em que catadoras e catadores trabalham e vivem. Precisamos de infraestrutura adequada, proteção à saúde, segurança de renda e participação nas decisões para evitar os impactos do calor extremo, enchentes, deslizamentos, queimadas e incêndios. Não existe transição justa se catadores e catadoras continuarem sendo invisibilizados e expostos aos riscos da crise climática.
Por isso, apresentamos as seguintes reivindicações:
Nossas reivindicações
- Participação e protagonismo nas políticas climáticas
Reivindicamos a participação efetiva das catadoras e dos catadores na elaboração, implementação e monitoramento das políticas públicas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Nossas associações, cooperativas e organizações precisam ser reconhecidas como interlocutoras fundamentais nas decisões que afetam nossos territórios, nossos locais de trabalho e nossas condições de vida. Defendemos nossa inclusão nos planos municipais, estaduais e nacionais de adaptação climática, nos sistemas de alerta e nas estratégias de prevenção, resposta e recuperação diante de eventos extremos.
- Financiamento climático e infraestrutura adequada para o trabalho
Reivindicamos acesso direto e desburocratizado a recursos públicos e climáticos para adaptar e fortalecer nossos espaços de trabalho. Precisamos de galpões seguros, com ventilação, cobertura, iluminação, instalações elétricas adequadas, drenagem e medidas de prevenção e combate a incêndios. Também reivindicamos equipamentos que reduzam o esforço físico e melhorem as condições de trabalho, além de água potável, banheiros, espaços para alimentação, sombra e descanso. Essas condições precisam ser garantidas também aos catadores que trabalham nas ruas, frequentemente sem acesso a espaços de apoio e serviços básicos.
- Proteção à saúde, à renda e à vida diante dos eventos climáticos extremos
Reivindicamos políticas permanentes de prevenção e proteção diante do calor extremo, das chuvas intensas, das enchentes, dos deslizamentos, das queimadas e dos incêndios. Isso inclui acesso a alertas climáticos e informações sobre a qualidade do ar, protocolos de saúde e segurança, equipamentos de proteção, assistência médica, psicológica, além de apoio social e econômico para os trabalhadores afetados. Defendemos também mecanismos de proteção da renda, como fundos de contingência e instrumentos de compensação diante de perdas e interrupções do trabalho.
Na Amazônia Legal e em outros territórios atingidos pelas queimadas, exigimos prevenção durante todo o ano, fiscalização contra incêndios ilegais, brigadas preparadas, recursos para o combate ao fogo e recuperação das áreas atingidas.
- Encerramento dos lixões com alternativas de trabalho, proteção e renda
O encerramento dos lixões deve ser acompanhado da oferta de alternativas dignas de trabalho, proteção social e renda para catadoras e catadores que dependem desses espaços para sua sobrevivência. Nesse sentido, a transição para modelos adequados de gestão de resíduos deve assegurar a manutenção das condições de vida e a participação efetiva das organizações de catadores em todas as etapas do processo, com a implementação de políticas de proteção social e geração de renda antes do fechamento dos lixões, e não apenas posteriormente.
- Reconhecimento e remuneração pelos serviços prestados pelos catadores
Nosso trabalho presta um serviço ambiental essencial à sociedade e precisa ser reconhecido e remunerado de forma justa. A venda dos materiais recicláveis, por si só, não remunera integralmente os benefícios sociais e ambientais gerados pela coleta seletiva e pela reciclagem. Reivindicamos mecanismos de pagamento pelos serviços ambientais prestados por catadoras e catadores, contratos e remuneração justa pelos serviços realizados e políticas que fortaleçam nossas organizações. Esse reconhecimento deve respeitar nossa identidade, nossa história e nossa categoria profissional: temos orgulho de ser catadoras e catadores.
- Valorização do cuidado e proteção das condições de vida
A crise climática também afeta nossas casas, nossas famílias e nossa saúde mental. A perda de moradias, a interrupção do trabalho, a insegurança de renda e a exposição contínua a situações de risco produzem sofrimento que não pode ser ignorado. Reivindicamos políticas de proteção social, acesso à saúde e atenção à saúde mental, reconhecendo também a sobrecarga das lideranças do movimento, frequentemente mulheres, que acolhem e apoiam trabalhadores e suas famílias sem o devido suporte.
Nossa contribuição precisa ser reconhecida
Catadoras e catadores já contribuem diariamente para o enfrentamento da crise climática por meio da coleta seletiva, da reciclagem, da educação ambiental e da mobilização das comunidades. Somos parte fundamental das soluções, mas não podemos assumir sozinhos a responsabilidade por desafios que exigem políticas públicas, financiamento e ação coordenada dos governos e de toda a sociedade.
Os recursos destinados à ação climática precisam chegar aos territórios e às organizações de catadores. Queremos participar das decisões, acessar financiamento, ter condições dignas de trabalho e receber remuneração justa pelos serviços que prestamos.
Levamos nossas reivindicações à COP 31 para afirmar que a transição climática precisa ser construída com a participação de quem já transforma a realidade todos os dias. Proteger o clima também significa proteger os trabalhadores e trabalhadoras que cuidam dos materiais, das cidades, dos territórios e da vida.
Não existe justiça climática sem trabalho digno, direitos e reconhecimento para catadoras e catadores de materiais recicláveis.
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 20 de outubro de 2026.





























