
Foto: Arquivo ACACP
“É muito triste você ver os filhos da gente pedir algo e não poder dar.” O desabafo de Lúcia Hemiliano, representante da Associação dos Carroceiros de Conselheiro Pena, no leste de Minas Gerais, traduz o impacto da perda de uma atividade que, por gerações, garantiu o sustento de famílias e ajudou a construir a cidade.
Após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, e a posterior proibição da extração artesanal de areia, os trabalhadores enfrentam dificuldades crescentes para manter sua renda e preservar um modo de vida que faz parte da história do município.
A associação reúne cerca de 16 núcleos familiares que vivem da tradição da carroça e do trabalho como areeiros. Para essas famílias, a atividade vai além da geração de renda: representa conhecimentos transmitidos entre gerações, vínculos de solidariedade e uma relação histórica com o território.
Agora, com o apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, por meio do edital Promoção e Defesa de Direitos Humanos na Bacia do Rio Doce, a organização busca fortalecer sua atuação coletiva, reivindicar direitos e conquistar o reconhecimento oficial como comunidade tradicional. “A gente também busca com o projeto garantir a permanência das nossas famílias tradicionais no território e o direito de dar continuidade a este trabalho que atravessa gerações e faz parte da história de Conselheiro Pena”, conta Lúcia.
Uma história que se confunde com a da cidade

Foto: Arquivo ACACP
A presença dos carroceiros em Conselheiro Pena remonta ao início do século XX, segundo os registros e a memória preservada pela comunidade. Antes da expansão dos caminhões e da mecanização do transporte, as carroças levavam areia, pedras, mantimentos, cimento e outros materiais da estação ferroviária aos comércios e às construções. O trabalho desses profissionais contribuiu para erguer casas, ruas e bairros.
O conhecimento do ofício passava de pais para filhos, assim como as técnicas de construção e manutenção das carroças, o manejo dos animais e a experiência adquirida no contato com o rio e o terreno. A comunidade também desenvolveu formas próprias de cooperação. Quando uma carroça quebrava, outro trabalhador ajudava; quando uma família precisava, havia uma rede de apoio.
As mulheres sempre tiveram papel importante nessa história. “Além de cuidar das casas e dos filhos, a gente conduzia carroças, retirava areia e ensinava a tradição aos mais jovens”, diz a carroceira. A memória dessas trabalhadoras e de gerações de carroceiros integra a identidade que a associação pretende preservar.
“Essa cidade foi construída pela carroça”, afirma Lúcia. A frase expressa a reivindicação por reconhecimento de uma contribuição histórica que, segundo a comunidade, vem sendo apagada diante das transformações urbanas e das restrições impostas à atividade.
Do rompimento da barragem à perda do sustento

Foto: Arquivo ACACP
O rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015, comprometeu a atividade dos areeiros e carroceiros da região. De acordo com a associação, a desconfiança sobre a qualidade da areia do Rio Doce afetou o trabalho. Posteriormente, os profissionais passaram a enfrentar dificuldades para obter autorização para a extração artesanal em outras áreas.
Em dezembro de 2023, após uma denúncia anônima, o grupo foi impedido de continuar a atividade na região do córrego João Pinto. “Isso deixou a gente em uma vulnerabilidade econômica. Porque a gente já enfrentava os efeitos das mudanças no território e da redução das oportunidades de trabalho”, desabafa.
Lúcia conta que, antes da interrupção, seu marido conseguia trabalhar cerca de 18 dias por mês com a retirada e a venda de areia. A renda permitia pagar as contas da casa e garantir o sustento da família. Hoje, os pequenos fretes que aparecem não oferecem a mesma segurança. Algumas famílias, relata ela, tiveram de vender carroças e animais para enfrentar as despesas.
“Hoje, esse recurso é totalmente privado para uma pessoa só”, afirma Lúcia, ao descrever a concentração da atividade de extração de areia no município. Segundo a associação, atualmente há autorização para a extração mecanizada, enquanto os trabalhadores tradicionais permanecem impedidos de exercer seu ofício. A organização reivindica condições justas para retomar o trabalho artesanal e participar das decisões que afetam seu território.
Lúcia relata que a ausência de reconhecimento institucional é outro obstáculo. A maior parte dos integrantes é negra ou parda, e muitos enfrentam dificuldades de acesso à informação e aos espaços formais de decisão.
Fortalecer a associação para reivindicar direitos
É nesse contexto que se desenvolve o projeto Carroceiros e areeiros: memória viva na construção de Conselheiro Pena, apoiado pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos por meio do edital Promoção e Defesa de Direitos Humanos na Bacia do Rio Doce.

Foto: Arquivo ACACP
A iniciativa tem como objetivos fortalecer a organização comunitária, ampliar a participação política dos trabalhadores, valorizar a memória da categoria e avançar na busca pelo reconhecimento como comunidade tradicional. Também pretende contribuir para a regulamentação da atividade carroceira e da extração artesanal de areia, de modo a assegurar a continuidade do ofício em condições dignas.
“O apoio é especialmente importante porque, antes do projeto, a gente não tinha recebido fomento financeiro. A falta de recursos dificultava a organização de reuniões, a interlocução com instituições públicas e a construção de uma atuação contínua na defesa dos direitos do grupo”, relata a representante da associação.
O projeto prevê ainda o levantamento de documentos, fotografias, vídeos e relatos de moradores mais antigos para a produção de uma cartilha em formato de fanzine. Segundo Lucy, “a ideia é contar a história da comunidade a partir do olhar dos próprios carroceiros e areeiros, registrando suas contribuições, seus saberes e os desafios enfrentados”.
Outra ação prevista é a troca de experiências com a Comunidade Carroceira de Belo Horizonte e Região Metropolitana, cujo reconhecimento oficial como comunidade tradicional é uma referência para a associação.
Lúcia espera que o apoio ajude a associação a ampliar suas articulações e a transformar reivindicações antigas em avanços concretos. Ela também sonha com iniciativas que ampliem o acesso de crianças e jovens à informática e ao apoio educacional, especialmente em famílias que enfrentam barreiras de acesso à leitura e às tecnologias.
“Estamos nos organizando. Estamos buscando pela nossa justiça, pela nossa verdade, pela nossa luta”, afirma.
A luta da associação ainda está em andamento. A retomada da extração artesanal de areia, a regulamentação do ofício e o reconhecimento como comunidade tradicional permanecem entre os principais desafios. Ao fortalecer a organização e registrar a memória de seus integrantes, o projeto busca garantir que essa história não seja apagada. E que as famílias tenham condições de continuar escrevendo seus próximos capítulos.




























