O Fundo Brasil de Direitos Humanos divulga, nesta terça-feira (27) as organizações pré-selecionadas pelo Edital Raízes – Fortalecendo Direitos, Autonomia e Sustentabilidade na Amazônia e no Cerrado.
Foram 43 iniciativas de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Ao todo, serão destinados até R$ 2,58 milhões para apoiar organizações e coletivos que atuam na defesa dos territórios, na promoção da justiça socioambiental e no enfrentamento das mudanças climáticas.
Das propostas anunciadas, 35 estão na Amazônia Legal, com foco na proteção dos territórios e na defesa de direitos coletivos, e oito no Cerrado, com propostas voltadas ao fortalecimento da sociobioeconomia e de alternativas produtivas sustentáveis.
As organizações estão distribuídas por mais de 40 municípios, em dez estados e quatro regiões brasileiras. A seleção contempla diferentes povos e comunidades tradicionais, reconhecendo a diversidade de estratégias construídas nos territórios para proteger a biodiversidade, preservar modos de vida e enfrentar os impactos da emergência climática.
Apoio direto a quem atua nos territórios
O Edital Raízes foi estruturado em dois eixos complementares. Na Amazônia Legal, o foco está no fortalecimento de iniciativas de proteção territorial, vigilância, mobilização comunitária e defesa dos direitos coletivos. Neste eixo, as iniciativas contam com o apoio da Forest, People, Climate (FPC).
No Cerrado, com o apoio do Instituto Itaúsa, o objetivo é apoiar alternativas produtivas sustentáveis, iniciativas de sociobioeconomia e formas de geração de renda que valorizem os conhecimentos tradicionais e contribuam para a conservação ambiental.
A seleção é feita pelo Comitê Independente, formado por ativistas e especialistas com experiência nos campos de atuação do edital. O grupo contribui para que a análise considere as realidades dos territórios e as demandas das organizações da sociedade civil.
“A cada seleção, também temos a oportunidade de compreender melhor os desafios enfrentados pelas organizações, identificar as pautas que precisam de mais apoio naquele momento e acompanhar como se configura o cenário de lutas por direitos humanos e justiça climática”, afirmou Allyne Andrade, diretora executiva do Fundo Brasil.
Para o Fundo Brasil, essa colaboração representa uma oportunidade de fortalecer conexões com iniciativas globais de mobilização de recursos para a proteção das florestas tropicais e a defesa dos direitos e da autonomia dos povos e comunidades em seus territórios, como o Forests, People, Climate, e de ampliar o diálogo com a filantropia empresarial, por meio do Instituto Itaúsa. Dessa forma, a parceria contribui para aproximar diferentes atores e ampliar o financiamento de iniciativas que promovam a justiça climática e fortaleçam as organizações e comunidades na defesa e na construção de sua autonomia nos territórios.
Veja as 43 iniciativas selecionadas:
Eixo 1 — Proteção dos territórios na Amazônia Legal
| Organização | Estado | Região |
| Associação do Povo Indígena INŪ KUĪ NI, NUKINI | Acre | Norte |
| Associação Dos Produtores e Produtoras Agroextrativistas do Seringal Floresta e Adjacentes – ASPAFA | Acre | Norte |
| Associação Huni Kuin Beya | Acre | Norte |
| Associação Kãda do Povo Jaminawa Arara – AKÃDA | Acre | Norte |
| Articulação do Povo Originário Munduruku – APOM | Amazonas | Norte |
| Associação de Desenvolvimento Artístico Cultural da Aldeia Indígena de Belém do Solimões – ADACAIBS | Amazonas | Norte |
| Associação dos Trabalhadores Rurais de Juruá – ASTRUJ | Amazonas | Norte |
| Coordenação de Proteção Etnoambiental e Desenvolvimento Sustentável Kanamari – COPEAKA | Amazonas | Norte |
| Departamento de Articulação das Juventudes Indígenas Magüta do Alto Rio Solimões – DAJIM/ARS | Amazonas | Norte |
| Grupo de Mulheres Indígenas da Aldeia Cucura | Amazonas | Norte |
| Organização do Povo Indígena Parintintin – OPIPAM | Amazonas | Norte |
| Associação das Mulheres Mãe Venina do Quilombo do Curiaú | Amapá | Norte |
| Associação de Mulheres Empreendedoras Empoderadas Agroextrativistas do Rio Ariramba Baixo Cajari – AMEEARABAC | Amapá | Norte |
| Movimento dos Pescadores e Pescadoras do estado do Amapá | Amapá | Norte |
| Associação dos Moradores da Reserva Extrativista Marinha de Cururupu – AMREMC | Maranhão | Norte |
| Associação dos Pescadores e Pescadoras de Santa Helena | Maranhão | Norte |
| Rede de Agroecologia do Maranhão | Maranhão | Norte |
| Rede de Mulheres Praianas da Resex de Cururupu – REMPREX | Maranhão | Norte |
| Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná | Pará | Norte |
| Associacao dos Produtores Rurais Nova Vitória – APRNV | Pará | Norte |
| Associação Indígena Pariri | Pará | Norte |
| Associacao Indigena Turiwara-Ka’l de Tome-acu | Pará | Norte |
| Associação Indígena Tuto Pombo | Pará | Norte |
| Associação Ngonh-Rorok-Kre | Pará | Norte |
| Coletivo de Mulheres do Xingu | Pará | Norte |
| Coletivo de Mulheres Pretas Marias | Pará | Norte |
| Grupo Gapuiá de Formação, comunicação e engajamento de Juventudes | Pará | Norte |
| Movimento Atitude Afro Pará | Pará | Norte |
| Rádio Comunitária Estrela de Anã | Pará | Norte |
| Associação do Povo Indígena Amondawa | Rondônia | Norte |
| Associação do Povo Indigena Zoro Pangyjej – APIZ | Rondônia | Norte |
| Associação Indígena Oro Macan | Rondônia | Norte |
| Museu Paiter A Soe | Rondônia | Norte |
| Associação dos Brigadistas Akwê Xerente de Prevenção e Controle às Queimadas e Combate a Incêndios Florestais | Tocantins | Norte |
| Associação Indígena da Comunidade Kaluani – AICK | Mato Grosso | Centro-Oeste |
Eixo 2 — Sociobioeconomia no Cerrado
| Organização | Estado | Região |
| Associação de Remanescentes Quilombola de Lajeado do Município de Dianópolis | Tocantins | Norte |
| Associação Hahi de Mulheres Krahô | Tocantins | Norte |
| Associação Comunitária dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto de Clemente – ACCFC | Bahia | Nordeste |
| Associação de Desenvolvimento Quilombola da Comunidade Brejo Grande | Piauí | Nordeste |
| Comunidade Quilombola Nossa Senhora Aparecida | Goiás | Centro-Oeste |
| Coletivo Tekohá Verde | Mato Grosso do Sul | Centro-Oeste |
| Associação Indígena Xavante Ripá de Produtividade e EtnoDesenvolvimento – AIRE | Mato Grosso | Centro-Oeste |
| Associação Indígena Xacriabá da “Aldeia Tenda” | Minas Gerais | Sudeste |
Organizações e estratégias diversas
O edital recebeu 173 propostas. Para Thainá Mamede, assessora de projetos do Fundo Brasil, responsável pelo Raízes, a seleção evidencia a importância de fortalecer experiências que já estão em andamento e que respondem, a partir da realidade local, aos desafios socioambientais.
“Reforçando que as respostas já existem, o nosso objetivo com esse edital é escalar essas oportunidades. Precisamos ampliar as condições para que as experiências desenvolvidas pelas próprias comunidades possam se fortalecer”.
Na Amazônia Legal, as iniciativas selecionadas estão distribuídas por oito estados: Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. As propostas envolvem ações de proteção territorial, fortalecimento da governança comunitária, monitoramento, defesa de direitos coletivos e preservação de conhecimentos ancestrais.
No Cerrado, as iniciativas apoiadas buscam fortalecer alternativas econômicas que valorizem a biodiversidade e os saberes tradicionais. Entre as estratégias presentes nas propostas estão a agroecologia, os sistemas agroflorestais, os bancos de sementes, a soberania alimentar, a recuperação de áreas degradadas e a geração de renda a partir dos conhecimentos das comunidades.
A seleção também evidencia o protagonismo de mulheres e jovens nas ações comunitárias. A maioria das organizações selecionadas ainda não havia recebido apoio do Fundo Brasil, ampliando o alcance dos recursos a grupos que atuam diretamente na defesa de direitos em seus territórios.
Resistência e protagonismo comunitário
Para Josimara Melgueiro, indígena do povo Baré e integrante do Comitê de Seleção, apoiar iniciativas que já estão em curso é uma forma de reconhecer a capacidade de organização das comunidades e fortalecer suas estratégias de defesa territorial.
“A valorização de iniciativas que já acontecem no território é muito preciosa. A gente fortalecer e apoiar aquilo que já está sendo feito”, afirmou.
A análise das propostas também evidenciou conflitos fundiários e pressões sobre os territórios, além da importância da demarcação, da soberania alimentar e dos conhecimentos ancestrais para a continuidade dos modos de vida tradicionais.
Valéria Carneiro, quilombola do Pará e integrante do Comitê de Seleção, destacou o protagonismo de mulheres e jovens nas iniciativas analisadas. “Quase todos os projetos são em defesa do território, e a gente viu o protagonismo das mulheres, da juventude sempre envolvidas”, observou.
Ela também chamou atenção para os desafios enfrentados pelas comunidades amazônicas, como os períodos de seca, os incêndios e as dificuldades de deslocamento, especialmente em localidades cujo acesso depende do transporte fluvial.
No Cerrado, as propostas demonstram como a defesa ambiental está relacionada às condições de vida e à autonomia econômica das comunidades. Jaqueline Andrade, coordenadora do programa Cerrado da Terra de Direitos e integrante do Comitê de Seleção, ressaltou que as iniciativas expressam formas de resistência diante das pressões do agronegócio, da mineração, do desmatamento e da contaminação dos rios.
“Ficou muito nítida essa resistência nos territórios frente à emergência climática que a gente vive”, afirmou Jaqueline. Ela também destacou o potencial de práticas como a agroecologia e a valorização dos conhecimentos tradicionais para fortalecer alternativas de geração de renda.
Vinícius Benites, integrante do Comitê de Seleção com experiência no apoio a organizações indígenas, avaliou que o fortalecimento direto das iniciativas comunitárias vem contribuindo para ampliar a capacidade de atuação das organizações.
“Essa questão do incentivo aos apoios diretos está começando a surtir alguns efeitos positivos”, afirmou. Para ele, as propostas demonstram avanços na organização comunitária e no desenvolvimento de ações de proteção territorial e gestão ambiental, com participação de mulheres e jovens.
Próximos passos
O Edital Raízes adota a modalidade de apoio flexível, que permite às organizações definir como utilizar os recursos de acordo com suas necessidades, prioridades e objetivos. A proposta reconhece que as próprias comunidades conhecem os desafios de seus territórios e devem ter autonomia para decidir quais estratégias fortalecer.
A equipe do Fundo Brasil entrará em contato com as 43 organizações recomendadas pelo Comitê de Seleção e aprovadas pela direção da instituição. Em seguida, será realizada a análise técnica e documental das propostas e, estando tudo de acordo, os apoios serão formalizados.




























