
A brigada feminina Xerente
O povo Akwê Xerente, que vive no cerrado no Tocantins, está acostumado com o fogo. Ele faz parte dos ciclos de renovação do bioma: no período de seca, pode ocorrer naturalmente, depois da queda de um raio. Ele queima as árvores de cascas grossas e raízes profundas, que tornam a verdejar depois que as chamas se extinguem.
Nos últimos anos, no entanto, essa dinâmica mudou. Conforme as temperaturas do planeta sobem, reflexo da crise climática, o período de secas se alonga e a estiagem fica mais severa. O fogo, antes útil à renovação da vegetação, se tornou destrutivo. Às queimadas naturais, somam-se incêndios criminosos e queimadas acidentais, provocadas pela ação humana.
Para proteger o território onde vivem há gerações, os xerente tiveram de se adaptar a esse novo contexto. Em 2014, criaram uma brigada indígena especializada no combate ao fogo. Vinculada ao Ibama, a Associação dos Brigadistas Akwê Xerente de Prevenção e Controle às Queimadas e Combate a Incêndios Florestais (ABIX) logo sedimentou a reputação de ser uma das mais preparadas do país. Em 2019, esse trabalho se desdobrou na criação de uma brigada exclusivamente feminina, a primeira do Tocantins.
Hoje, toda essa movimentação protagonizada pelos Xerente ganha registro em foto, vídeo e post de redes sociais. Desde 2025, a Abix conduz o projeto Fogo Sagrado: Comunicação e saberes indígenas na prevenção e combate aos incêndios do Cerrado.
Realizado com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, o projeto trabalha para formar comunicadores indígenas capazes de registrar e divulgar as práticas de manejo do fogo conduzidas pelos Xerente. “Queremos mostrar que somos capazes de criar soluções e contribuir para minimizar os impactos das mudanças climáticas. Queremos divulgar o que fazemos e o importante trabalho que prestamos à humanidade e ao planeta”, diz a associação, contemplada pelo edital Raízes e Labora 2025.
A equipe formada pelo Fogo Sagrado também produz material de caráter educativo, destinado a ensinar sobre o avanço da crise climática.
No limite, a brigada indígena e a equipe de comunicadores compartilham um objetivo: cada qual à sua maneira, trabalham para proteger o território Xerente e preservar seus conhecimentos e tradições. Duas dimensões – território e cultura — indissociáveis para os povos originários.
Apoio à gestão territorial
Desde que foi criado, em 2006, o Fundo Brasil de Direitos Humanos apoia iniciativas como a dos Xerente do Tocantins. Em 20 anos, a instituição destinou mais de R$12 milhões a projetos e organizações dedicados a proteger e promover os direitos dos povos originários.
Em larga medida, as ações apoiadas se destinam à valorização das culturas desses povos, ou à demarcação e proteção de seus territórios tradicionais.
Existem cerca de 1,7 milhão de pessoas autodeclaradas indígenas vivendo no Brasil hoje. São representantes de 305 povos, falantes de, pelo menos, 166 idiomas. A Constituição de 1988 afirma que todos eles detêm o direito originário sobre os territórios que tradicionalmente ocupam. E que é dever do Estado brasileiro demarcar e proteger essas terras.
Entre o que diz a Carta e o que ocorre na prática, no entanto, existe um abismo. Dos mais de 1300 territórios tradicionais identificados pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), somente algo em torno de 50% já foram demarcados nos últimos 38 anos.
Essa morosidade do Estado deixa as terras indígenas vulneráveis à ação de invasores, garimpeiros e madeireiros ilegais. Um problema que ainda aflige, mesmo que em menor grau, também as TIs já demarcadas, nos casos em que a proteção estatal se prova insuficiente. Esse cenário de insegurança reduz a autonomia dos indígenas sobre suas próprias terras, o que compromete sua sobrevivência material e cultural.
Os apoios oferecidos pelo Fundo, por meio de editais ou em caráter emergencial, permitem que organizações indígenas aprimorem suas capacidades de gestão territorial.
Era esse o desejo dos indígenas Xavante da aldeia Tsa’Amri Wawé, da terra indígena Parabubure, quando se inscreveram no edital Povos Indígenas lutando por Justiça Climática 2024.
A pouco mais de 500 km de Cuiabá, no Mato Grosso, a terra indígena Parabubure compreende um polígono de 224 mil hectares cercado por lavouras de soja numa das regiões mais desmatadas da Amazônia brasileira.
Com o apoio do Fundo Brasil, a aldeia Tsa’Amri Wawé cultiva, desde 2024, uma agrofloresta: um sistema em que espécies nativas crescem entremeadas a gêneros alimentícios.
Na agrofloresta xavante, são plantados inhame, taioba, baru, mangaba, cagaita, buriti, araticum, jenipapo, gabiroba, sucuuba, bacaba, tucum e jatobá-do-cerrado. “Comida suficiente para alimentar toda a aldeia”, conta a antropóloga Watsi Betânia, uma das idealizadoras do projeto. O trabalho é encabeçado pela Associação no Meio Ambiente Revolucionário — AMAR, organização formada pelos próprios indígenas.
O desejo de implantar uma agrofloresta no território ocorreu à Betânia por acaso, durante uma viagem dela ao Acre. No estado, ela conheceu projetos semelhantes, conduzidos por outros povos, como os Huni Kuin. Na terra indígena Colônia 27, os Huni Kuin – também com apoio do Fundo Brasil – cultivam uma agrofloresta que converteu, em mata, 100 hectares de pasto degradado.
“Essas experiências mostraram para a gente que a agrofloresta pode ser um primeiro passo na construção de um plano de gestão territorial indígena’, diz Betânia. Um plano de gestão territorial indígena é um documento que registra os modos de vida desses povos, e a maneira como pretendem gerir seus territórios de modo a garantir o bem-estar e a sobrevivência de suas comunidades.
Para começar o trabalho na agrofloresta, Betânia conta que a comunidade precisou, primeiro, revisitar conhecimentos ancestrais. Entender quais espécies nativas cultivar e em que momentos. “Isso envolveu toda a aldeia. Todas as faixas de idade”.
O processo fez crescer, na comunidade, o interesse por planejar e registrar como preservar seu território. “A agrofloresta fez os parentes entenderem a importância do plano territorial e ambiental para garantir nossa soberania alimentar. Nos fez ver a importância de pensar, por exemplo, a gestão dos recursos hídricos”.
Além de financiar a iniciativa, o Fundo Brasil ofereceu acompanhamento técnico ao projeto. “Os assessores do Fundo nos ajudaram a colocar, por escrito, nossas ideias”, diz Betânia. “Mas não nos disseram o que fazer. Não impuseram um projeto. O Fundo Brasil confiou na nossa capacidade de apontar soluções”.

Na Agrofloresta Xavante, são cultivados alimentos suficientes para uma aldeia inteira (Foto: Lyanna Soares/Acervo AMAR)
Relações baseadas na confiança
As parcerias estabelecidas pelo Fundo Brasil com as organizações apoiadas seguem essa regra: são baseadas na confiança. A instituição entende que as organizações, atuantes em seus territórios, detêm o conhecimento necessário para apontar saídas aos problemas que enfrentam.
No caso das organizações indígenas, esse laço de confiança é respaldado por dados. Hoje, os territórios indígenas são aqueles que mais preservam a vegetação nativa no país, segundo levantamento do MapBiomas.
Num planeta cada vez mais quente, florestas preservadas atuam como sumidouros de carbono – sequestram dióxido de carbono da atmosfera, algo essencial para combater a crise climática.
Foi justamente para apoiar povos indígenas e comunidades tradicionais que o Fundo Brasil lançou, em novembro de 2023, Raízes: uma iniciativa focada em Justiça Climática.
“O Fundo Brasil tem uma trajetória consolidada no apoio a povos indígenas e comunidades tradicionais”, diz Thainá Mamede, assessora de projetos do Fundo Brasil e responsável por Raízes. “Ao estruturar uma linha específica para esse fim, o Fundo buscou concentrar esforços e aprofundar sua atuação. É uma forma de destacar a urgência da pauta climática, e de sublinhar a importância desses grupos para a superação da emergência do clima. São populações que, historicamente, já desenvolvem práticas fundamentais de preservação, proteção territorial e produção sustentável, articuladas aos seus modos de vida, contribuindo de forma concreta para o equilíbrio climático e a manutenção da biodiversidade’.
Desde 2024, Raízes destinou mais de R$2,9 milhões a projetos de temática indígena. A Abix e a agrofloresta Xavante, de que falamos nessa matéria, estão entre as iniciativas contempladas.
No universo da filantropia, Raízes tem ainda uma ambição nada pequena: a de demonstrar, para possíveis financiadores, a urgência de apoiar iniciativas geridas por povos originários. Estima-se que, mundialmente, somente 17% do financiamento disponível para a pauta ambiental e climática chegam às comunidades indígenas. O Fundo Brasil entende que é essencial redistribuir esses recursos.




























