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    Cortes no financiamento desafiam futuro da filantropia antirracista

    Com queda de investimento, organizações negras reinventam estratégias para fortalecer o combate ao racismo no Brasil
    Renata Paes*
    10/09/2026
    6 min
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    Maria Clara Araújo, Giovanni Harvey, Flávio Costa, Átila Roque e Douglas Belchior | Foto: Rebeca Figueiredo

    Com o avanço da extrema direita no cenário político mundial, a retração do financiamento para organizações antirracistas tem marcado o campo da filantropia. Nesta quarta-feira (9), durante o primeiro dia da Conferência de Direitos Humanos – sociedade civil, os desafios do Brasil, a filantropia e os próximos 20 anos, a discussão foi o centro da mesa Do Black Lives Matter aos cortes no financiamento: como retomar a atenção da filantropia para o enfrentamento ao racismo?. O evento foi promovido pelo Fundo Brasil, dentro das comemorações de duas décadas de existência da Fundação.

    A conversa foi mediada por Flávio Costa, jornalista investigativo do ICL, e reuniu diferente perspectivas sobre os desafios enfrentados pelos movimentos negros. Entre os presentes, estiveram Giovanni Harvey,  diretor executivo do Fundo Baobá; Átila Roque, historiador e cientista político; Maria Clara Araújo, afrofeminista do Black Feminist Fund; e Douglas Belchior, consultor do Instituto de Referência Negra Peregum.

    Segundo Giovanni, apesar do avanço da extrema direita e da redução do apoio à pauta racial, o contexto atual não deve ser analisado apenas pelos fatos do presente, mas também a partir de uma perspectiva histórica. Afinal, a luta antirracista dispõe, hoje, de mais instrumentos e instituições de enfrentamento do que há 50 anos. “Acho que nós não estamos tão mal quanto parece ou como dizem que estamos”, afirmou ele, e defendeu que o movimento deve reivindicar a sua ampliação, não apenas defender direitos já conquistados. 

    A discussão sobre a duração e a natureza dos recursos destinados ao combate ao racismo foi aprofundada por Maria Clara Araújo, que apresentou a experiência do Black Feminist Fund (BFF), organização voltada ao financiamento de movimentos feministas negros. Para ela, a retração dos recursos evidencia o subfinanciamento histórico dessas instituições. 

    Criado em março de 2021, o fundo adotou como uma de suas principais estratégias o financiamento de longo prazo, com recursos destinados por até oito anos aos grupos apoiados. De acordo com Maria Clara, em cinco anos, mais de US$ 50 milhões foram destinados a grupos feministas negros nas Américas, na África, na Europa e no Oriente Médio. O fundo também passou a atuar na articulação de feministas negras que trabalham em diferentes instituições filantrópicas, em um momento de pressões para que as organizações retirem termos relacionados à raça e gênero de seus documentos e projetos.

    Maria Clara defendeu que movimentos feministas negros não sejam reduzidos apenas a organizações voltadas às questões de gênero, pois esses grupos atuam em áreas como mudanças climáticas, saúde e educação e, por isso, precisam ser reconhecidos como agentes políticos capazes de responder a diferentes crises.

    Átila Roque, por sua vez, ampliou a discussão para uma perspectiva histórica. O ex-diretor da Fundação Ford no Brasil lembrou que a entrada da agenda de justiça racial no centro da filantropia brasileira não ocorreu de forma espontânea, mas como resultado da pressão dos movimentos sociais.

    Para ele, o debate sobre as cotas raciais foi um dos momentos que mais provocaram o setor filantrópico brasileiro. A mobilização em torno dessa política pública trouxe para o centro da sociedade a discussão sobre desigualdade racial antes mesmo do assassinato de George Floyd, em 2020. O caso norte-americano, porém, deu novo impulso à pauta, sobretudo no cenário internacional.

    “Não vamos ser tão esquecidos assim. Nós tivemos um tremendo momento no Brasil que foi a luta por cotas”, afirmou Roque. Não à toa, ele defende que a retração em curso não deve ser interpretada como o fim da agenda racial, mas como parte de uma disputa permanente por espaço e representatividade negra.

    Estruturas que permanecem além do financiamento de projetos

    A necessidade de transformar financiamento pontual em apoio permanente foi destacada por Douglas Belchior. Isso porque ele concorda que as organizações negras não podem depender de recursos destinados exclusivamente a projetos com começo, meio e fim. Acontece que os recursos filantrópicos são temporários e devem ser utilizados para construir estruturas que permaneçam mesmo quando o financiamento terminar. Entre as prioridades para isso, citou o fortalecimento político, a construção de patrimônio e a formação de lideranças.

    Além disso, Douglas criticou a estrutura tradicional dos editais, na qual os financiadores definem problemas, estratégias e critérios de avaliação aos quais as organizações negras precisam se adaptar. Para ele, é necessário inverter essa lógica e garantir maior autonomia a quem atua nos territórios.

    A discussão convergiu para uma crítica ao modelo de financiamento baseado em projetos de curta duração e submetido às mudanças de interesse dos financiadores. Em vez de depender de momentos de comoção ou de mudanças momentâneas, os participantes defenderam uma filantropia capaz de sustentar organizações a longo prazo e reconhecer sua autonomia política.

    Para Douglas, o desafio não está apenas em conseguir recursos, mas em aproveitar os períodos de financiamento para fortalecer a organização política dos movimentos. A tarefa envolve formação, criação de vínculos e organização territorial para que as instituições não dependam da existência de uma bolsa ou de um projeto financiado.                                

    Em relação à disputa de ideias que ocorre no cenário político atual, Átila Roque defendeu que o movimento antirracista precisa disputar a imaginação e os afetos da sociedade, aproximando sua pauta da cultura, da arte e das experiências cotidianas. Para ele, falar de igualdade racial não deve significar apenas reagir a retrocessos, mas também apresentar um projeto capaz de mobilizar diferentes setores da população. “A nossa luta é universal e tem maioria no Brasil”.

     

    *Renata Paes,  membro da Jornalismo Júnior da Escola de Comunicação e Artes da USP, sob supervisão da jornalista Mônica C. Ribeiro.

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