
Jonathas Azevedo, Mônica Nóbrega, Maíra Junqueira, Valéria Carneiro e Valéria Paye | Foto: Rebeca Figueiredo
A filantropia local é uma alternativa de financiamento que vem sendo aperfeiçoada no Brasil e em todo o Sul Global. A frase foi destacada por Mônica Nobrega, coordendora de comunicação do Fundo Brasil e mediadora da mesa A Importância de Fundos Locais, Comunitários e Independentes para o Fortalecimento da Sociedade Civil Organizada.
A conversa contou com a participação de Jonathas Azevedo, diretor executivo da Rede Comuá; Maíra Junqueira, diretora da Fundação Ford no Brasil; Valéria Paye, diretora executiva do Podáali Fundo Indígena da Amazônia Brasileira; e Valéria Carneiro, coordenadora do Fundo Quilombola Mizizi Dudu.
Por meio de dados e relatos pessoais, os palestrantes abordaram a força de fundos locais, comunitários e independentes e os desafios enfrentados por eles, especialmente no Sul Global. A conversa também levantou discussões sobre formas de atuação comunitária e relações de apoio entre movimentos sociais e grandes instituições.
Coletividade e colaboração
Segundo Jonathas, fundos locais são definidos por sua organização autônoma, independente da gerência de grandes órgãos ou atores renomados. O diretor executivo da Rede Comuá explica que essas organizações são baseadas nas comunidades e nas demandas regionais que elas enfrentam.
Nesse sentido, Valéria Carneiro explica que regulação fundiária e o reconhecimento de territórios quilombolas, pautas centrais do Fundo Mizizi Dudu, só são possíveis através do contato direto com as comunidades presentes nestes espaços. Para a ativista, a organização só se torna capaz de atender a um grupo de forma adequada ao escutar suas reivindicações e compreender sua forma de ocupação.
Do mesmo modo, Valéria Paye reforça que sua iniciativa segue o movimento indígena, em contato com sua história e demais entidades. “Somos só parte da solução, em um ecossistema de identificação criado entre semelhantes”, afirma.
A relação entre fundos com pautas similares também foi um um ponto de destaque da conversa. Para os palestrantes, a colaboração entre entidades filantrópicas locais é essencial para que essas organizações se sustentem.
Valéria Paye, que também é ativista indígena, explica que o fundo Podáali faz parte da Coordenação de Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), órgão que permite a relação direta entre movimentos diversos da região amazônica. A coordenação, fundada em 1998, atualmente articula nove diferentes fundos ligados à pauta indígena.
A Rede Comuá e a Fundação Ford são outras entidades que mobilizam e reúnem fundos em estruturas de colaboração. Jonathas conta que, para a Rede Comuá, a relação com outras entidades forma um “micélio”, ou seja, “é uma rede que muitas vezes é invisibilizada, mas que sustenta seu campo e está comprometida com a transformação”. Maíra, da Fundação Ford, também reforça o coletivo: “buscamos fortalecer a democracia, e a sociedade civil e suas organizações são pilares para isso”.
Engessamento e Sul Global
De acordo com o Conselho de Fundações dos Estados Unidos, apenas 13% das doações organizadas pela filantropia do país são direcionadas ao Sul Global. Este dado, trazido por Mônica Nóbrega, realça a falta de contato entre organizações internacionais e as causas de países não centrais na geopolítica mundial.
Para Maíra, parte do motivo de fundos locais, especialmente brasileiros, serem afastados dos internacionais é a falta de confiança das duas partes. A palestrante explica que a relação da filantropia depende do reconhecimento e da responsabilidade entre os envolvidos, e que a distância entre grandes organizações e entidades regionais costuma gerar desconfiança sobre suas capacidades. Segundo a diretora da Fundação Ford, fundos internacionais evitam aqueles pouco conhecidos, enquanto fundos locais temem receber recursos para causas não ligadas às suas.
Valéria Paye complementa que, além da pouca interação entre instituições do exterior e causas locais, grandes organizações também criam barreiras à obtenção de recursos por fundos independentes. A ativista explica que os processos de requerimento costumam ser “engessados”, com exigências muito específicas e excludentes. Ela dá o exemplo do Green Climate Fund (GCF), maior fundo global de ações climáticas da filantropia, que buscou incluir o Podáali em seu programa, mas trouxe exigências tão restritas que o Fundo não poderia se adequar.
A diretora conta que busca “provocar o campo” ao apresentar imposições próprias de sua comunidade, sem se restringir às requisições formais: “grandes instituições também precisam rever seus processos e documentos. Não somos só nós que temos que nos adequar”. Ela defende que haja diálogo e um acordo entre ambos os lados envolvidos, sem que apenas pequenos fundos financiados tenham que ceder.
Jonathas, por sua vez, amplia esse ponto destacando que as barreiras da filantropia são, muitas vezes, intencionais, ligadas a preconceitos e sistemas consolidados na desigualdade. “Nunca foi falta de dinheiro”. Ele conta que a rede Comuá tem como lema “fazer chegar para o impossível acontecer”, e uma de suas principais pautas é a incidência pela facilitação do recebimento de recursos para esses fundos e organizações.
*Nina M Bozic, membro da Jornalismo Júnior da Escola de Comunicação e Artes da USP, sob supervisão da jornalista Mônica C. Ribeiro.




























