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    Enfrentamento ao Racismo

    Instituto Solo Ancestral mapeia terreiros para proteger território, memória e ancestralidade na Ilha de Itaparica

    Com apoio do Fundo Brasil, projeto da organização mapeia 21 terreiros de tradição Egun, mobiliza a juventude local e combate o apagamento cultural na Ilha de Itaparica
    Mariana Rodrigues
    02/09/2026
    10 min
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    Comunidade e Instituto Solo Ancestral reunidos na Ilha de Itaparica. O projeto, apoiado pelo Fundo Brasil, une gerações para preservar a memória e a ancestralidade de terreiros da tradição Egun diante de ameaças territoriais. (Foto: Divulgação/Instituto Solo Ancestral)

    A construção da Ponte Salvador-Itaparica amplia a pressão sobre territórios tradicionais da Ilha de Itaparica, onde comunidades de matriz africana enfrentam há anos a especulação imobiliária, a expansão urbana e ameaças à permanência de seus espaços sagrados. No Quilombo Alto da Bela Vista, formado pelas comunidades Alto da Bela Vista e Barro Branco, o Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral responde a esse cenário registrando no mapa aquilo que a comunidade conhece e preserva há gerações.

    Com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, por meio do Edital Enfrentando o Racismo na Base 2025, o projeto já documentou 21 terreiros de tradição Egun, ouviu mais de 60 pessoas e envolveu jovens na produção de registros, entrevistas e dados sobre o território. O trabalho parte de uma compreensão de que defender esses espaços também significa enfrentar o apagamento de histórias, saberes e referências de comunidades negras e proteger o direito de praticar sua religião e permanecer em seus territórios.

    A construção desse registro nasce de uma compreensão de território que vai além da terra delimitada em um mapa. Terreiros, árvores, nascentes, áreas de colheita ritual, histórias familiares e lugares que permanecem na memória fazem parte dessa geografia. São espaços onde se cruzam relações familiares, práticas religiosas, formas de subsistência e conhecimentos transmitidos entre gerações.

    A organização comunitária e autônoma foi criada para preservar essa história e fortalecer a defesa do território. Formalizado há cerca de três anos, o Instituto reúne, sistematiza e transmite saberes da tradição Egun, uma das expressões de matriz africana presentes na Bahia.

    “A ideia do Instituto é que ele seja um grande ponto de memória para a comunidade. Não dá para uma pessoa que não conhece a realidade da gente escrever e construir sobre nós”, afirma Anane Simões Dantayó, diretora executiva do Instituto.

    Ponte Salvador-Itaparica e a disputa pelo território

    Jovens e crianças cantam durante atividade do projeto, simbolizando o fortalecimento da organização comunitária e a continuidade da tradição Egun na Bahia. (Foto: Divulgação/Instituto Solo Ancestral)

    A pressão sobre o Quilombo Alto da Bela Vista é anterior ao projeto da ponte. A região já convivia com a especulação imobiliária e com as transformações provocadas pelo turismo de veraneio. A construção do novo sistema viário acrescentou uma nova frente de pressão sobre as comunidades.

    Para os moradores, os impactos vão além das áreas diretamente ocupadas pela obra. O projeto e as intervenções associadas podem afetar áreas de manguezal utilizadas para subsistência, elevar o custo de vida, interferir em espaços sagrados e dificultar a permanência de comunidades tradicionais no território.

    Nas fases iniciais do empreendimento, dois terreiros da tradição Egun chegaram a estar sob ameaça direta de remoção. A mobilização comunitária contribuiu para a alteração do traçado original da obra.

    A mudança, porém, não encerrou a disputa.

    “A comunidade não conseguiu vencer, não conseguiu bloquear a construção, o avanço. Teve as escutas, a maior parte da população tradicional disse que não, mas ainda assim não deu conta, as obras avançaram”, relata Anane.

    Para o Instituto, produzir e organizar informações sobre o território é também uma forma de fortalecer a capacidade da própria comunidade de reivindicar direitos e incidir sobre decisões que afetam seu futuro.

    Uma história contada por quem vive no território

    Para construir esse registro, o projeto começou pela escuta de quem guarda a memória das casas e de seus territórios.

    Entre janeiro e fevereiro de 2026, mais de 60 pessoas participaram das escutas comunitárias, entre anciãos, lideranças e moradores de diferentes gerações. Os relatos ajudam a reconstruir a trajetória das casas de axé e sua relação com lugares como Barro Vermelho, Ponta de Areia e o atual território do Alto da Bela Vista.

    Entre as pessoas ouvidas está Augustino dos Santos, conhecido como Luide no Ilê Agbôula. Descendente da família Daniel de Paula, ele conta que ainda menino conheceu o Barro Vermelho, quando o terreiro estava instalado naquele território, e acompanhou parte da mudança posterior para o Bela Vista.

    “Naquela época eu alcancei o Barro Vermelho, que eu era rapazinho, garoto pequeno, não cheguei a ver muita coisa lá. Eu era pequeno. Já tem muitos anos. De lá foi que veio para cá e eu entendi e dei início a minhas obrigações”, relata.

    Augustino também recupera a trajetória religiosa que o levou ao nome pelo qual é conhecido no terreiro: “Meu nome é de batismo, Augustino dos Santos. Dentro do terreiro de Bababular eu comecei iniciando com o Otum, Babatunde, e daí eu fui subindo, passei para Otum, o Luide, e hoje eu sou o Luide.”

    São relatos que ajudam a preservar não apenas datas e nomes, mas relações entre famílias, linhagens espirituais, lugares e práticas religiosas que fazem parte da história de comunidades negras da região.

    O território contado por quem vive nele

    Jovens e crianças participam de atividades educativas sobre direitos territoriais e a importância dos espaços sagrados na Ilha de Itaparica. (Foto: Divulgação/Instituto Solo Ancestral)

    A história dessas famílias está ligada às transformações do território.

    Segundo Anane, grupos ligados à tradição Egun ocuparam uma região cercada por mata como forma de resguardo. A vegetação oferecia proteção e fazia parte da vida cultural e espiritual da comunidade.

    Um dos episódios mais importantes ocorreu no Barro Vermelho. A área, utilizada para subsistência e celebrações religiosas, chegou a ser ameaçada pela construção de um conjunto habitacional. A mobilização comunitária conseguiu interromper o avanço das máquinas e garantir a posse da área. Hoje, a comunidade trabalha para transformar o espaço em um parque ancestral protegido.

    A história ajuda a mostrar como a defesa do território está diretamente ligada à possibilidade de preservar práticas religiosas, relações comunitárias e conhecimentos transmitidos ao longo das gerações.

    É nesse contexto que surgiu o Observatório Egungun, uma das principais frentes do projeto “Rota Egungun – Territorializar a Ancestralidade”.

    A cartografia social é georreferenciada, mas não se limita à localização dos terreiros. O levantamento reúne informações sobre fundadores, linhagens espirituais, árvores e sementes sagradas, nascentes e os chamados territórios de memória.

    “Uma nascente pode fazer parte de uma história. Uma árvore pode ser sagrada. Uma área de mata pode reunir práticas religiosas e atividades de subsistência. Um terreiro que deixou de existir fisicamente pode continuar sendo parte da memória de uma família”, explica Anane.

    Ao registrar essas informações, o projeto busca tornar visíveis referências que nem sempre aparecem nos estudos convencionais sobre o território. A proposta é complementar os levantamentos técnicos com informações produzidas por quem vive no local e conhece seus usos, relações e histórias.

    A cartografia e a cartilha produzidas também poderão subsidiar interlocuções com a Secretaria de Cultura da Bahia, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), além de pedidos de tombamento e outras medidas de salvaguarda.

    Jovens aprendem a registrar e defender o território

    As novas gerações também participam da produção desse conhecimento.

    Vinte jovens participam da formação em Direitos Territoriais, Legislação e Incidência Política. Outros cinco recebem formação em Comunicação Comunitária. Doze deles, com idades entre 17 e 22 anos, receberam bolsas e passaram a atuar diretamente nas atividades do Observatório.

    Eles entrevistam sacerdotes, lideranças e anciãos, fazem registros audiovisuais, operam equipamentos e ajudam a alimentar a base de dados do projeto.

    As escutas também envolveram crianças, que produziram desenhos dos terreiros. Parte desse material deverá integrar o site do Observatório e a galeria física do museu comunitário.

    A formação cria condições para que os próprios jovens da comunidade participem do registro e da defesa de sua história, de seus espaços sagrados e de seus direitos.

    Jovens bolsistas do Observatório Egungun participam ativamente do mapeamento social. Na imagem, eles apresentam o registro do terreiro de Eduardo Daniel de Paula, um trabalho que envolve formação em direitos territoriais e comunicação comunitária. (Foto: Divulgação/Instituto Solo Ancestral)

    O apoio que impulsiona o trabalho

    O apoio do Fundo Brasil foi destinado tanto às atividades de registro e formação quanto ao fortalecimento da estrutura do Instituto.

    Os recursos viabilizaram o mapeamento dos terreiros, as bolsas para jovens, as entrevistas e a produção audiovisual. Também contribuíram para a montagem da galeria física do museu comunitário, incluindo a impressão e exposição da cartografia social.

    Na estrutura da organização, o recurso ainda permitiu contratar assessoria contábil para a regularização do CNPJ, desenvolver planejamento estratégico e adquirir equipamentos de informática e vídeo.

    O Instituto atua em diferentes frentes, como memória, educação, cultura, comunicação e defesa territorial. O apoio contribui para que a organização tenha condições de manter essas atividades e fortalecer uma atuação construída a partir das prioridades da própria comunidade.

    Os próximos passos incluem concluir o mapeamento dos terreiros restantes, chegando a 30 ao todo, consolidar e disponibilizar a base georreferenciada e apresentar publicamente os resultados do trabalho. O Instituto também prevê a realização de petições públicas em defesa do território.

    “Com o avanço das obras e a permanência da pressão imobiliária, a cartografia poderá ser utilizada em processos de incidência diante de novas ameaças ou violações de direitos”, explica Anane.

    No Alto da Bela Vista, o mapa registra uma geografia que não aparece necessariamente nos projetos de infraestrutura: aquela formada por memórias, relações familiares, práticas religiosas, lugares de subsistência e vínculos construídos ao longo de gerações.

    Ao registrar esses lugares e histórias, o Instituto Solo Ancestral também reivindica que eles sejam considerados nos processos que definem o futuro do território. “É uma forma de enfrentar o apagamento de referências negras e de afirmar que proteger os terreiros, sua memória e seus espaços sagrados também é defender direitos”, finaliza a coordenadora.

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