
Fábio Pontes, Andréia Coutinho, Maryellen Crisóstomo, Sineia Wapixana e Maureen Santos | Foto: Rebeca Figueiredo
A atuação de povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais nas decisões sobre a crise climática foi tema de debate durante a Conferência de Direitos Humanos do Fundo Brasil. A diretora executiva do Centro Brasileiro de Justiça Climática, Andréia Coutinho; a jornalista e quilombola do território Baião, Maryellen Crisóstomo; a liderança em justiça climática e cientista política, Maureen Santos; e a enviada especial da COP para povos indígenas, Sineia do Vale, discutiram os avanços e limites da participação popular nas Conferências das Partes (COPs), em conversa mediada pelo editor executivo do Jornal Varadouro, Fábio Pontes.
Apesar dos avanços, participação nas COPs ainda apresenta desafios
Representante do povo Wapichana, de Roraima, Sineia afirma que a presença dos povos indígenas nas conferências é resultado de décadas de mobilização. As COPs são eventos anuais promovidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) que envolvem quase 200 países para discutir e tomar decisões sobre as mudanças climáticas e o destino do planeta.
Segundo ela, a participação nesses espaços não foi concedida pelos governos, mas conquistada pelos próprios povos. Desde a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, precursora do modelo atual das COPs, organizações de comunidades autóctones passaram a ampliar sua atuação em espaços internacionais de discussão climática.
Na avaliação de Sineia, a COP 30, realizada no Brasil em 2025, foi um avanço importante nesse processo. A metodologia da conferência ampliou os espaços destinados à sociedade civil, com mais de 600 lideranças indígenas presentes.
Maryellen Crisóstomo, quilombola e jornalista, no entanto, alega que apesar dos avanços, a própria linguagem das conferências pode funcionar como uma barreira à participação. O domínio de termos técnicos e do inglês – idioma predominante nas negociações – dificulta a aproximação com representantes dos territórios. “Os termos técnicos também são uma forma de exclusão”, afirma.
A repórter ressalta ainda a importância de que os compromissos assumidos durante as conferências sejam registrados nos documentos oficiais. “Só vai se transformar em compromisso dos Estados o que está no texto.”
Atuação para além das conferências
A diretora executiva do Centro Brasileiro de Justiça Climática, Andréia Coutinho, destaca que a discussão sobre justiça climática também passa pela comunicação. Existe, segundo ela, uma desigualdade na cobertura dos eventos climáticos: os acontecimentos em São Paulo ou no Rio de Janeiro recebem maior atenção, enquanto episódios em regiões como o Acre podem levar dias para alcançar a mídia nacional. Ampliar o conhecimento sobre a agenda climática, em sua percepção, exige uma linguagem acessível e uma produção jornalística capaz de aproximar os debates internacionais das realidades locais.
A participação local, porém, não deve se limitar à presença nas conferências. Andréia destaca a necessidade de ampliar o acesso a informações sobre as COPs e seus principais conceitos, especialmente entre organizações e movimentos sociais. A linguagem é parte dessa disputa, já que compreender os termos e processos das conferências é necessário para que diferentes grupos possam acompanhar as negociações. “Comunicação é poder, jornalismo é poder, linguagem é poder”, enfatiza.
Maureen Santos, cientista política, também chama a atenção para os processos construídos fora dos espaços oficiais das conferências. A Cúpula dos Povos, por exemplo, funciona como um espaço de resistência e para a construção de alternativas diante dos limites de participação existentes nas negociações formais.
A Cúpula dos Povos de Belém foi construída durante dois anos e meio, e reuniu movimentos sociais e organizações indígenas, quilombolas, negras, femininas, além de sindicatos e redes internacionais. O processo começou com cerca de 40 associações e chegou a mais de 1.500, relata Maureen. Para ela, um dos principais legados foi a ampliação da agenda climática entre movimentos que anteriormente não tinham o tema como uma de suas pautas.
Ao final, as participantes e o mediador defenderam que a presença popular nas COPs não deve ser vista como um objetivo isolado. A construção da justiça climática depende da organização nos territórios, da produção de conhecimento, da comunicação, do financiamento e da pressão sobre governos. A participação nas COPs seria, assim, parte de uma mobilização mais ampla que continua antes, durante e depois de cada conferência.
* Lucas Miranda, membro da Jornalismo Júnior da Escola de Comunicação e Artes da USP, sob supervisão da jornalista Mônica C. Ribeiro.

























