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    Direitos das populações quilombolas e tradicionais

    Mulheres jongueiras recuperam quintais medicinais e fortalecem saberes quilombolas no Sapê do Norte

    Com apoio do Fundo Brasil, iniciativa no Quilombo São Cristóvão reúne gerações, cultiva ervas medicinais e amplia a circulação de conhecimentos ancestrais
    01/09/2026
    9 min
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    Mulheres da associação exibem os frascos dos óleos essenciais produzidos com plantas e ervas medicinais dos quintais de cura. Foto: AMJQSC

    No Quilombo São Cristóvão, em São Mateus (ES), os quintais sempre foram mais do que espaços de cultivo. Neles, mulheres mais velhas aprenderam e transmitiram conhecimentos sobre plantas usadas para cuidar da saúde, em preparos como banhos, pomadas, xaropes e garrafadas. Esses espaços também ajudam a manter viva a relação da comunidade com a terra, reunindo práticas de cuidado, memória e formas de uso do território construídas ao longo de gerações.

    Com as mudanças no modo de vida, a redução das áreas de cultivo e o afastamento das novas gerações, parte desse conhecimento começou a correr o risco de se perder. Recuperar os quintais, nesse contexto, significa não apenas preservar práticas de cuidado, mas fortalecer a presença das mulheres e das famílias no território e manter vivas formas de relação com a terra que fazem parte da história do quilombo.

    Foi para enfrentar esse processo que a Associação das Mulheres Jongueiras Quilombolas de São Cristóvão criou o projeto Terreiro de Cura: Produção de Ervas Medicinais nos Quintais do Quilombo São Cristóvão, apoiado pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos por meio do edital Promoção e Defesa de Direitos Humanos na Bacia do Rio Doce – 2025.

    A iniciativa combina formação, cultivo, troca de sementes e mudas e transmissão de conhecimentos entre mulheres de diferentes gerações. No curso Ervas que Rezam, mulheres mais velhas, jovens e outras integrantes da comunidade compartilham conhecimentos sobre as plantas e aprendem também sobre a produção de fitoterápicos.

    A formação é realizada em parceria com uma agricultora do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que trabalha com ervas medicinais, enquanto as matriarcas do quilombo contribuem com os conhecimentos que aprenderam ao longo da vida.

    Para Josiléia dos Santos do Nascimento, presidente da Associação, aproximar as diferentes gerações é uma das partes centrais do projeto. “A gente entende que os jovens são uma continuidade desses saberes. Se eles não estiverem junto conosco, como vão aprender a conduzir esse processo? Um dos instrumentos que mais prezamos é justamente a transmissão dos saberes para os nossos.”

     

    Um viveiro para fazer o conhecimento circular

    Integrantes da Associação das Mulheres Jongueiras Quilombolas de São Cristóvão trabalham no cultivo da horta comunitária. Foto: AMJQSC

     

    O projeto também criou um viveiro comunitário de ervas medicinais, construído a partir do trabalho coletivo das mulheres. Dois mutirões já foram realizados e a próxima etapa prevê o plantio das mudas. A ideia não é apenas manter as plantas no território, mas fazer com que sementes, mudas e conhecimentos circulem entre as famílias e outras comunidades do Sapê do Norte. Ao multiplicar as plantas e ampliar os espaços de cultivo, as mulheres também fortalecem o uso comunitário da terra e ajudam a manter vivo o território quilombola.

    “Hoje tem companheira que tem erva no quintal e antes não tinha. A gente compartilha ervas, compartilha sementes e conversa sobre o quintal, sobre como ele está e como mudou. Está sendo uma vivência muito rica para dentro do território”, conta Josiléia.

    Essa circulação já chegou às feiras. As mulheres passaram a levar mudas de plantas medicinais para eventos e a comercializar produtos cultivados no território, criando novas possibilidades de geração de renda a partir de conhecimentos que fazem parte da vida comunitária. A iniciativa também fortalece uma dinâmica de economia circular e criativa, com exposição e comercialização de ervas ornamentais e medicinais.

    Em junho, durante a feira comunitária realizada no 3º Encontro Cultural de São Cristóvão, o grupo apresentou ervas medicinais e outros produtos produzidos pelas mulheres. O espaço construído pela associação passou a funcionar também como local de exposição e comercialização.

    Quando o conhecimento passa de uma geração para outra

    Mudas de plantas medicinais e ornamentais cultivadas em embalagens recicláveis. A iniciativa alia preservação ambiental e sustentabilidade no cotidiano da comunidade quilombola. Foto: AMJQSC

    O Terreiro de Cura nasceu de uma experiência anterior da própria associação. Durante a pandemia, mulheres quilombolas participaram de uma ação de educação popular em saúde que resultou na produção e distribuição de xaropes para comunidades da região. A experiência reforçou uma preocupação antiga: era preciso retomar os quintais medicinais e criar condições para que os conhecimentos sobre as plantas continuassem circulando.

    Nos quintais da comunidade, as mulheres cultivam espécies como alecrim, arnica, açapeixe, pariri, abre-caminho, tipi, espada-de-são-jorge e babosa, utilizadas em banhos, chás, pomadas, garrafadas e xaropes. O cultivo mantém essas espécies presentes no cotidiano e ajuda a preservar práticas de cuidado transmitidas entre gerações. Ao mesmo tempo, fortalece os quintais como espaços de produção, memória e convivência dentro do território quilombola.

    Agora, a experiência começa a chegar a outras comunidades do Sapê do Norte. Segundo a associação, outros territórios quilombolas da região também passaram a trabalhar com ervas medicinais e plantas nativas. Para as mulheres jongueiras, esse movimento mostra que o conhecimento produzido em São Cristóvão pode circular para além dos limites da própria comunidade.

    A associação também quer ampliar a participação de crianças e jovens. Uma das próximas atividades previstas é a Trilha do Saber, que levará as novas gerações para conhecer as ervas presentes nas áreas de mata do território.

    “Cada projeto que a gente entra abre um leque de possibilidades. E não só para nós, da comunidade São Cristóvão. A gente está abrindo portas e janelas para que outras comunidades também tenham acesso e fortaleçam sua cultura”, afirma Josiléia.

    Cuidar dos quintais também é proteger o território

    A recuperação dos quintais acontece em um território marcado por diferentes pressões ambientais e sociais. Segundo os moradores, a redução das áreas de cultivo, as mudanças no modo de vida e o envelhecimento das pessoas que guardam esses conhecimentos contribuíram para enfraquecer a transmissão dos saberes sobre as plantas medicinais. Nesse contexto, manter os quintais produtivos é também uma forma de fortalecer a presença da comunidade em seu território e preservar práticas que dão sentido à vida quilombola.

    Os impactos relacionados à bacia do Rio Doce também fazem parte dessa história. Josiléia conta que os efeitos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), chegaram à região por meio do mar e do sistema do rio São Mateus/Cricaré. A pesca artesanal foi afetada, assim como atividades culturais ligadas aos festivais de caranguejo e camarão

    Ervas medicinais recém-colhidas são preparadas pelas jongueiras para a produção de remédios tradicionais e extratos naturais. Foto: AMJQSC

    , importantes para a atuação dos grupos culturais do território.

    Hoje, a agricultura praticada no território não é apontada pela associação como diretamente afetada pelo desastre. A preocupação permanece principalmente em relação à pesca e à segurança sobre a origem do pescado.

    “A gente fica assim na mente: vou comer peixe não, porque não sei de onde está vindo esse peixe. A gente ainda vive com insegurança”, relata Josiléia.

    Nesse contexto, recuperar os quintais medicinais significa fortalecer a autonomia das mulheres e preservar uma forma de cuidar da saúde que está ligada à terra, à cultura e à vida comunitária. É também uma maneira de manter o território em uso, preservar espécies e conhecimentos e criar condições para que as próximas gerações continuem encontrando ali referências de sua própria história.

    O projeto alcançou diretamente 26 mulheres e outras 700 pessoas indiretamente, por meio de feiras, encontros culturais e redes sociais. Para além dos números, a associação destaca mudanças no cotidiano: mulheres que passaram a cultivar ervas em casa, conhecimentos que voltaram a ser compartilhados e produtos que começaram a circular em espaços comunitários.

    Dois apoios, uma parceria construída no território

    O Terreiro de Cura é o segundo projeto da Associação das Mulheres Jongueiras Quilombolas de São Cristóvão apoiado pelo Fundo Brasil. A parceria anterior teve como foco a culinária quilombola como forma de afirmação da identidade e preservação da ancestralidade.

    Com esse primeiro apoio, a associação equipou e ampliou a Cozinha Tia Vergo, batizada em homenagem a uma matriarca, parteira e ervaneira da comunidade. O e

    Comunidade comercializa produtos artesanais e alimentícios durante evento local, conectando a produção quilombola com o público externo. Foto: AMJQSC

    spaço se tornou ponto de encontro, acolhimento e formação para as mulheres. O projeto também ajudou a aproximar as escolas do território por meio de oficinas práticas de produção de beiju e ext

    ração de óleo de dendê realizadas na histórica Casa de Farinha.

    Com os recursos do segundo apoio, foi possível estruturar o viveiro comunitário de ervas medicinais, realizar mutirões, organizar formações e criar condições para que os quintais de cura voltassem a fazer parte do cotidiano das moradoras.

    “Se nós temos hoje uma cozinha que fala do nosso povo, que trabalha com elementos do nosso povo, por nossas mãos, talvez a gente ia conseguir um dia, mas com a força que o Fundo já deu, a gente já conseguiu ter esse instrumento, conseguiu ter a Casa de Farinha organizada, conseguiu ter o espaço das mulheres apresentarem suas produções”, explica Josiléia.

    Para a associação, os dois projetos têm algo em comum: fortalecem iniciativas pensadas e conduzidas pelas próprias mulheres do território, criando condições para que conhecimentos, práticas e formas de organização comunitária possam continuar existindo e alcançar outras gerações.

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