
Rosane Borges, Guacira de Oliveira, Betânia Ávila e Lola Ferreira | Foto: Rebeca Figueiredo
O aumento dos casos e de novas formas de violência contra a mulher ao longo dos anos tem demandado a construção permanente de mecanismos e estratégias de proteção. Betânia Ávila, pesquisadora e co-fundadora da SOS Corpo — Instituto Feminista para a Democracia; Guacira de Oliveira, socióloga e co-fundadora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFemea); e Rosane Borges, jornalista e professora da PUC-SP, discutiram o tópico na palestra Infodemia da violência contra a mulher: como enfrentar os novos desafios na proteção contra a violência de gênero?, mediada pela jornalista Lola Ferreira, no segundo dia da Conferência de Direitos Humanos – sociedade civil, os desafios do Brasil, a filantropia e os próximos 20 anos, promovida pelo Fundo Brasil.
Décadas de luta por direitos
1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no país em 2025, conforme o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O número, recorde da série temporal da pesquisa, evidencia a persistência da violência contra a mulher e reforça a necessidade de políticas e ações voltadas ao seu enfrentamento.
A violência de gênero é uma realidade histórica no país, e a conquista de espaço para essa discussão no debate público resulta de décadas de mobilização dos movimentos feministas pelos direitos e pela representatividade das mulheres, ressalta a socióloga Guacira.
A Constituição Federal de 1988 representou uma conquista nessa trajetória, ao consagrar, pela primeira vez na história do país, a igualdade de direitos e obrigações entre homens e mulheres. O reconhecimento tardio desse princípio mostra, entretanto, o longo caminho percorrido até a conquista da igualdade formal.
Outro marco foi a Lei Maria da Penha, sancionada em agosto de 2006, que representou um importante avanço ao estabelecer mecanismos de proteção física, psicológica, patrimonial, sexual e moral para mulheres em situação de violência. Os dados, no entanto, revelam que ainda há muito pelo que lutar.
Os desafios para combater a violência
Guacira afirma que o Estado carece de políticas públicas de proteção às mulheres, sobretudo de prevenção à violência. Essa lacuna é preenchida por organizações comunitárias e movimentos sociais, que oferecem suporte às vítimas, relata a socióloga.
A pesquisadora Betânia Ávila afirma ainda que a alta quantidade de notícias negativas a que a população é exposta dia após dia, relacionadas ou não à violência de gênero, não permite tempo para sensibilização e revolta. “Há tanta violência que um processo de dessensibilização social é imposto”, completa Guacira. A jornalista e professora Rosane Borges concorda com as demais palestrantes e questiona como é possível promover justiça se não há comoção ou indignação diante da violência perpetrada.
Rosane ressalta que a violência atinge principalmente mulheres negras. No ano passado, 65,1% das mulheres vítimas de feminicídio eram negras. A jornalista também chama atenção para outro dado alarmante: o Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A mentalidade machista e patriarcal que rege o país é outro obstáculo para o combate à violência de gênero destacado por Guacira. “Prevenir a barbárie de que as mulheres são vítimas é um processo que precisamos construir juntos para transformar corações e mentes nesse país violento” afirma ela.
Políticas públicas e ação coletiva
A socióloga ressalta a importância de políticas públicas mais eficientes de proteção às mulheres: “É necessário que o Estado tome providências em relação a isso”. As palestrantes também enfatizaram a importância da união para combater o cenário atual.“Não há caminho sem organização e luta coletiva”, afirma Betânia.
Para superar a cultura machista e patriarcal, Betânia defende a necessidade de uma educação popular feminista antirracista. A pesquisadora encerra o debate enfatizando a importância da ação coletiva para combater o cenário atual: “O sofrimento não muda o mundo. Só a revolta contra o sofrimento muda o mundo, e a revolta contra o sofrimento só muda o mundo se for uma revolta coletiva”.
*Lucas Miranda, membro da Jornalismo Júnior da Escola de Comunicações e Artes da USP, sob supervisão da jornalista Mônica C. Ribeiro.




























